Minas Gerais

Herdeiros do Afoxé Ilê Odara, blocos afro crescem no Carnaval de BH

Afoxé Ilê Odara
Afoxé Ilê Odara: bloco afro pioneiro em BH na década de 1980 deixou herança à folia Imagem: Afoxé Ilê Odara

Miguel Arcanjo Prado

23/02/2017 14h31

Os blocos afro marcam, cada vez mais, forte presença no Carnaval de Belo Horizonte. Tanto que a festa será aberta com o encontro de blocos afro Kandandu (que na língua africana Kumbundu significa “abraço”), na próxima sexta (24), às 19h, na praça da Estação, centro da capital mineira. A folia belo-horizontina este ano espera receber público recorde de 2,4 milhões de pessoas

Entre os blocos afro que participam estão Angola Janga, Afoxé Bandarerê, Magia Negra, Fala Tambor, Samba da Meia Noite e Tambolelê. A estes se juntam os blocos Dreadlocko e Do Zé Pretinho. Todos, de certa forma, herdeiros do Afoxé Ilê Odara, grupo carnavalesco de matriz africana pioneiro no Carnaval de Belo Horizonte, fundado por Oneida Maria da Silva Oliveira (1932-1988), a Mãe Gigi, que será homenageada no Kandandu.

A ideia nasceu após um show de Gilberto Gil, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em meados de 1979, como lembra Rosileide Oliveira, filha de dona Oneida e integrante da formação original do Afoxé. “Mamãe teve acesso ao camarim e, no meio da conversa, Gil perguntou por qual motivo ainda não tinha um afoxé em Belo Horizonte. Ela, como ialorixá, envolvida com o MNU (Movimento Negro Unificado) e seus valores, viu ali nascer a ideia, com o desafio lançado por Gil, por quem ela tinha grande carinho”.

Logo, outros encontros foram marcados entre Gil e Mãe Gigi, dando origem ao Afoxé Ilê Odara, tendo como inspiração o baiano Afoxé Filhos de Ghandy. “Gil esteve algumas vezes lá em casa, esclarecendo dúvidas sobre a criação do Afoxé em relação à indumentária e percussão”, recorda Rosileide, que era uma das coreógrafas do grupo.

Assim, o primeiro desfile do Afoxé Ilê Odara nas ruas de Belo Horizonte, em 1980, saudou justamente os Filhos de Ghandy. Na diretoria, além de Mãe Gigi e seu marido, o sambista Raimundo Luiz de Oliveira, o Velho Dico, estavam também a coreógrafa Marlene Silva e o jornalista e cientista político Dalmir Francisco.

“O objetivo do Afoxé Ilê Odara sempre foi divulgar a cultura negra, mostrando ao negro o seu verdadeiro valor dentro da história e abrir espaço para inserção do negro na sociedade, lutando contra o racismo”, lembra Rosileide.

Ela conta que o primeiro desfile foi sem patrocínio. “Lembro que as cortinas de casa tornaram-se fantasias”. Depois do impacto da estreia na avenida, “o bloco conseguiu respeito das autoridades culturais de BH”, ela conta. “Conseguimos verbas e apoio de alguns políticos que abraçaram o Afoxé, como Mauricio Campos, à época prefeito de Belo Horizonte”, revela.

Rosileide lembra do desfile de 1988, que ocorreu um mês após a morte de sua mãe, como um momento inesquecível. Seu irmão, Reinaldo Oliveira compôs a música “Mãe Mãe”, que foi entoada por ele e todo o bloco e que trazia os versos: “Já falei pra Mãe Gigi, ela nos abençoou, vou levando o seu axé, com fé, vou dançar meu Afoxé, ô Mãe!”, cantados aos prantos pelos integrantes.

“Foi um desfile de superação, sem a matriarca. E o bloco estava ali, impecável, em lágrimas, emocionando uma multidão que sentia a dor junto do bloco. Certamente, foi o mais marcante”, define Rosileide.

Retomada

Depois de um hiato de 28 anos, Reinaldo Oliveira retomou em 2016 o Afoxé Ilê Odara na mesma sede original, no bairro Aparecida. Este ano, coloca o agora Bloco do Tirey Afoxé Ilê Odara na rua pela segunda vez, após a retomada. O desfile é no domingo (26), às 17h, na avenida Américo Vespúcio, 600.

Para terem mais força, os blocos afro agora estão reunidos na Abafro – Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais, presidido por Nayara Garófalo, co-fundadora do bloco Angola Janga, ao lado de Lucas Nascimento. A entidade luta por igualdade racial na folia e por reconhecimento dos ritmos de matriz africana tocados na festa.

“A atual força dos blocos afro em BH representa a retomada do protagonismo do negro no Carnaval de rua, já que o mesmo foi criado pelos próprios negros, que não tinham acesso aos bailes carnavalescos dos clubes da cidade”, afirma Gabriel Prado, pesquisador de literatura afro-brasileira na UFMG.

Diante do crescimento do Carnaval negro em Belo Horizonte nos últimos anos, Rosileide afirma que sua mãe estaria feliz em ver que sua luta deu frutos. “Acredito que hoje, se ela estivesse viva, se alegraria com a proporção que tomou o Carnaval de BH.  A negrada feliz! Como dizia ela, ‘a felicidade do negro é felicidade guerreira!’”, conclui Rosileide.

Programação dos blocos afro de BH

Kandandu – Abraço dos blocos afro abrindo o Carnaval de BH
Sexta (24), 19h, na Praça da Estação, BH

Bloco Afro Tambor
Sábado (25), 15h, na Praça Doutor Lucas Machado, em BH

Bloco Angola Janga
Domingo (26), 16h, na av. Álvares Cabral, 400, BH

Bloco do Tirey Afoxé Ilê Odara
Domingo (26), 17h, na Av. Américo Vespúcio, 600, Aparecida, BH

Afoxé Bandarerê
Segunda (27), 14h, na Praça México, Concórdia, BH

Bloco Afro Magia Negra
Terça (28), 13h, na Rua Bom Despacho, 11, Santa Tereza, BH

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