Rio de Janeiro

Nova geração põe em xeque o estereótipo da passista do Carnaval

Kelly Lima/edercontent
Nova geração de passistas põe em xeque o estereótipo do Carnaval no Rio de Janeiro Imagem: Kelly Lima/edercontent

Ronald Lincoln Jr.

Colaboração para o UOL

24/02/2017 11h05

Elas ganharam fama mundo afora com as "mulatas do Sargentelli", com o corpo escultural e o samba no pé simbolizando a beleza do Carnaval brasileiro. Mas as jovens gerações de passistas das escolas de samba do Rio querem dar um novo significado ao trabalho que realizam no sambódromo e fora dele. E elas garantem: isso nada tem a ver com a passista Globeleza estar nua ou vestida em rede nacional. "A Globeleza vai estar vestida na TV, mas não vai estar na avenida e o cara vai continuar achando que a gente é um pedaço de carne, vai continuar oferecendo dinheiro", diz Larissa Neves, 21, estudante de psicologia, passista do Salgueiro há dez anos.

Larissa integra o coletivo Samba Pretinha, criado em 2016 por quatro jovens negras que se propõem a debater o estereótipo da "mulata brasileira", glamourizada no Carnaval e discriminada no restante do ano. Assédio sexual, racismo --mesmo em um ambiente predominantemente negro-- e desvalorização profissional são alguns dos desafios que as mulheres que vivem de dançar samba têm de enfrentar. "Essas meninas, fazendo esse debate, podem ressignificar a ideia da passista", diz a historiadora Janaína Oliveira, que coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (ou só NEABI) do Instituto Federal do Rio de Janeiro.

Preconceito e racismo

Nascido no Salgueiro, o movimento foi bem recebido por passistas de outras tradicionais agremiações, como Mangueira e Beija-Flor, que participaram das palestras do Samba Pretinha. A iniciativa surgiu após a passista Mirna Moreira, 22, também do Salgueiro, sofrer racismo nas redes sociais ao participar de um concurso de beleza entre alunos da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde estuda medicina. Ganhou a solidariedade de Larissa e Rafaela Dias e Sabrina Ginga, colegas de ala no Salgueiro, que criaram o projeto. Mirna juntou-se a elas, assim como Sabrina Ginga, passista há oito anos.

Criado para debater temas como questões raciais e femininas dentro do universo carnavalesco, o movimento cresceu e extrapolou as quadras das escolas de samba. A poucos dias do Carnaval, o grupo participou de um debate promovido pelo movimento negro na Lapa e discutiu racismo e sexismo no samba em evento realizado por uma marca de sandálias no coração da zona sul carioca, em Ipanema.

Os julgamentos ocorrem dentro e fora das quadras das escolas. Ex-passista da Império Serrano, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio, Monique Oleotério, 26, relata que sofreu preconceito até mesmo em movimentos de militância negra. Em um debate sobre feminismo negro, ela ouviu que ser passista era uma ofensa para as mulheres negras e que deveria rejeitar esse papel de objeto. "Vejo isso como um trabalho muito bem feito do racismo: nossas formas de expressão são criminalizadas e julgadas a partir do ponto de vista do colonizador, não importa o significado que tenham para nós, como surgiram ou o papel que cumprem".

No outro extremo, elas enfrentam resistência dentro das escolas para assumirem os cabelos crespos. No Samba Pretinha, todas exibem o cabelo afro com orgulho, mas nem sempre foi assim. Após deixar de usar as tranças longas, ideais para "jogar cabelo", movimento comum na dança do samba, Sabrina Ginga, 28, teve de abandonar os shows de passistas que a escola faz. "Disseram: 'Você tem que botar cabelo'. Mas eu sempre resisti", conta Sabrina, que ostenta madeixas afro naturais, descoloridas, penteadas para o alto.

Formada em ciências sociais na UERJ, ela também sentiu o estranhamento dos colegas de faculdade no início da graduação. A abordagem era sutil, mas o preconceito estava nas entrelinhas. "Eu sei que as pessoas sabiam da minha condição de passista e que achavam isso esquisito. 'Nossa, ela faz ciências sociais e é passista?'", relata.

Nas quadras e barracões das escolas, elas ouvem com frequência que "passista não é mulher para namorar, passista é mulher só para ficar". Mirna, do Salgueiro, conta que o preconceito ecoa entre os próprios ritmistas e colegas de ala das passistas. "Eles, mais que qualquer outra pessoa, sabem que estar aqui não tem nada a ver com estar disponível. É o machismo nosso de cada dia."

Julyana Clara, musa da Mangueira (posto de destaque entre as passistas), conta que enfrentou resistência do marido. "Quando o conheci, ele tinha muito ciúme. Pediu para eu não fazer mais show. Mas eu não deixei de sambar. Ele me conheceu assim, tinha que aceitar. Hoje, ele leva na boa, mas tem ensaio que ele prefere não assistir. Fica incomodado com os outros homens olhando para mim".

Mulher objeto

Para Janaína Oliveira, do NEABI-IFRJ, a concepção que se tem da mulher negra como um ser hipersexualizado é marca da escravidão. "Nesse imaginário, o corpo da mulher é feito para ser desfrutado, mesmo sem a vontade dela. Por outro lado, o feminismo avança dizendo que a mulher pode fazer o que quiser com seu corpo."

A nudez ou o uso de biquíni na fantasia, o que deixa o corpo da passista exposto, é tema frequente nos debates do Samba Pretinha. O figurino que elas usam não é justificativa para corroborar a objetificação de seus corpos. "Quando estamos em cena, somos artistas. O biquíni é a roupa mais confortável", argumenta Sabrina. "Quando eu sambo, eu não penso em seduzir ninguém, estou praticando a minha arte." Para Larissa, o figurino da passista não carrega a simbologia de exploração da sexualidade da mulher negra que é atribuída a ele. "Isso está na cabeça de quem vê, para nós tanto faz."

Rafaela, 27, musa do Salgueiro, é a única que vive de dançar samba e sente o preconceito na pele. Em shows contratados para eventos e casamentos, ela conta que são comuns pedidos de fotos em que as pessoas querem tocar seios e nádegas das passistas. Durante apresentações, homens pedem "shows particulares" e tentam colocar dinheiro sutilmente na mão das passistas. "No mundo do samba tem mulher que se prostitui, em todo lugar tem. Se ela quer fazer, é o corpo dela e ela faz. O problema é que acham que são todas", reclama Larissa.

História

A pesquisadora de Carnaval Rachel Valença diz que o uso do biquíni hoje pelas dançarinas do samba é uma evolução da classe. "Na década de 1960, as escolas refletiam as características da época, eram conservadoras, as passistas usavam uma sainha. Mas hoje, você vai à praia e as mulheres vestem biquíni, e na balada usam roupa curta. O samba exige esse tipo roupa. O samba é sensual e não pode ser atenuado".

A personagem passista nasceu junto com a criação das escolas de samba, conta o historiador Luiz Antonio Simas. Segundo ele, os dançarinos "representam o próprio fundamento de que o samba depende de uma integração entre ritmo e corpo", algo que, na concepção original, não tinha uma carga de hipersexualizar o corpo da mulher. Para Simas, a objetificação das mulheres passistas "retrata o machismo naturalizado na formação social brasileira, em que a mulher, em especial a negra, era vista como um objeto."

Profissionalismo

As passistas também acreditam que parte da culpa pelos preconceitos que sofrem se deve à falta de reconhecimento profissional da classe. Apesar de receberem gordos patrocínios para os desfiles, muitas escolas não oferecem estrutura adequada para seus integrantes.

Uma das principais referências do Carnaval carioca, Aldione Senna foi passista por mais de 50 anos. Hoje, tem 61. Vencedora de diversos prêmios, ela conta que, em seu auge, as passistas eram bem remuneradas. Atualmente, diz a veterana, a direção das escolas de samba não repassam o pagamento justo às passistas. "Quando o contratante chega à escola querendo o show, a direção faz o orçamento, com o número de baianas, ritmistas e passistas. E o contratante não costuma reclamar do preço".

Para Sabrina, a preparação e a técnica da passista não são levados em conta porque sambar é encarado como algo natural para as brasileiras negras. "Se fossem bailarinas que contratassem para uma festa, acho que o tratamento seria outro porque bailarinas são vistas como profissionais."

Para Aldione, cabe às passistas exigir a valorização. Ela defende que a nova geração questione os convites para shows em que não é oferecida remuneração justa. "Mesmo sabendo que o show é de graça, elas vão, ficam com medo de ser excluídas do desfile. Se elas não exigirem, quem vai fazer por elas?”, questiona.

A pesquisadora Rachel Valença, que já presidiu a escola de samba Império Serrano (uma das mais tradicionais do Carnaval carioca, atualmente na Série A), acredita que a profissionalização do samba se deu apenas em alguns segmentos. "Tem intérprete que ganha carro, apartamento para mudar de escola. Só que essa profissionalização não chegou à bateria, às baianas e às passistas." Mesmo que seja complicado para a escola pagar a todos os integrantes, que são muitos, se um ganha, os outros ficam descontentes, diz Rachel. "É preciso repensar esse modelo de gestão".

Globeleza é referência

Quem pensa que a nova geração de passistas enxerga a Globeleza como exemplo de objetificação do corpo da passista na vinheta da TV não pode estar mais enganado. Num depoimento emocionado, Larissa conta que entrou em conflito com si mesma ao perceber que a polêmica sobre o uso de trajes do Carnaval regional na vinheta deste ano poderia exigir que ela se posicionasse contra a Globeleza. "Desde criança, ela sempre foi um exemplo positivo para mim, alguém que exalta a mulher negra em rede nacional. Foi aí que percebi que alguém teria de falar sobre isso, e descobri que seria eu a falar", conta com a voz embargada.

No Samba Pretinha, a Globeleza é referência de empoderamento da mulher negra. "Quando é que se vê na TV uma mulher negra brilhando sozinha?", questiona Larissa. Entre as passistas mirins, afirma, é impossível encontrar quem não deseje ser a próxima a estrelar a vinheta do Carnaval. Mas a presença da população negra em posições de destaque na TV --além do Carnaval-- precisa aumentar, diz a passista.

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