Recife e Olinda

"Só podemos beijar porque é Carnaval": Olinda tenta combater homofobia

Daniel Oliveira/UOL
Liz Ribeiro (de preto): ?A gente sofre tanto no dia a dia, no Carnaval, temos de aproveitar? Imagem: Daniel Oliveira/UOL

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em Recife

25/02/2017 19h31

Quem passou pela rua Treze de Maio, em Olinda, neste sábado de Carnaval (25), viu o público gay muito à vontade. Casais homossexuais, tanto de homens quanto de mulheres, beijavam-se em meio à multidão suada com a mesma naturalidade e desinibição do que os heterossexuais costumam mostrar nesta época do ano. Ainda não há motivos, porém, para eles celebrarem a vitória sobre a homofobia.

A prefeitura de Olinda está promovendo neste Carnaval uma campanha de conscientização sobre a questão. Até o fim do feriado, irá distribuir quatro mil adesivos com a mensagem “Deixe a homofobia dentro do armário”. Uma equipe de dez pessoas circula entre os foliões para distribuí-los. Eles também usam as chamadas mochilas-pirulito, que levam uma haste com um cartaz, para divulgar o slogan da campanha.

A escolha do tema não é aleatória. Apesar da rua Treze de Maio já ser um polo gay consagrado da cidade, Olinda e Pernambuco enfrentam problemas com a violência contra homossexuais.

No pré-Carnaval, um jovem de 20 anos levou um soco no rosto e caiu de uma escadaria ao tentar fugir de um agressor. Marcos Valdevino fraturou a mão e disse que apanhou por ser gay. Um homem teria achado que ele estava beijando outro homem, dentro de um banheiro químico.

Daniel Lisboa/UOL
Olivio Barbosa e Fabrício Cruz, no Carnaval de Olinda Imagem: Daniel Lisboa/UOL
Em 2015, um beijo entre gays acabou na delegacia. O baiano Magno da Costa Paim e o paraense Hector Zapata beijavam-se próximo ao Mercado da Ribeira quando foram abordados por policiais. De acordo com o relato da dupla, eles foram agredidos e levados à delegacia, onde ainda foram acusados de atentado violento ao pudor.

“Aqui tem muito arrastão, mas, quando é com gays, costumam bater também”, diz Julio Cesar Muniz. Dono de um bar na rua Treze de Maio, há sete anos, ele conta que, pouco antes do Carnaval deste ano, viu um rapaz gay ser agredido com garrafadas por outros seis homens na frente do seu estabelecimento. “E não adianta falar com a polícia que eles não resolvem”, diz o comerciante.

Liedson Almeida vende cerveja na rua Treze de Maio e conta que brigas são frequentes ali. A maioria, ele diz, não envolve homofobia necessariamente. Mas, assim como Julio Cesar, ele já presenciou agressões do gênero. “Acontece sim, já vi umas duas ou três vezes.”

Mas o problema não se restringe à Olinda. O último grande levantamento sobre violência aos homossexuais, feito pelo Grupo Gay da Bahia, em 2014, colocou Pernambuco em primeiro lugar no ranking de números totais de assassinatos. Em 2013, 34 pessoas foram assassinadas em crimes de viés homofóbico. Quando se leva em conta a proporção de casos em relação à população, Pernambuco fica em sexto lugar.

Na época em que o estudo foi lançado, a ONG chamou o Nordeste de “região mais homofóbica do Brasil”. Concentrava então 43% dos crimes, apesar de representar 30% da população brasileira.

Secretária executiva da Mulher e Direitos Humanos de Olinda, Verônica Brayner disse que muita gente temeu que o atual prefeito da cidade, o evangélico Lupércio Carlos do Nascimento, fosse acabar com o núcleo voltado aos direitos LGBT quando assumisse este ano. Isso não aconteceu, e a secretaria pôde promover sua campanha.

Daniel Lisboa/UOL
Imagem: Daniel Lisboa/UOL
“A princípio houve a ideia de criar o corredor da diversidade, concentrando as ações LGBT na rua Treze de Maio, mas não queremos segregar, queremos incluir, aí optamos pela campanha”, explica Verônica. Ela diz que, pelo menos no sábado, a iniciativa ia bem. “Os adesivos estão tendo uma boa aceitação, todo mundo está pegando.”

Entre os foliões, a ideia geral era de que a liberdade proporcionada pelo Carnaval é um tanto artificial. Em dias normais, eles provavelmente não se sentiriam tão à vontade. “A gente já sofre tanto no dia a dia, no Carnaval, temos de aproveitar”, diz a paraibana Liz Ribeiro. “E olha que aqui é melhor. Em João Pessoa, não dá para se beijar assim não.”

Ainda mais à vontade, Olivio Barbosa e Fabrício Cruz se beijavam ardorosamente no meio da rua. "Achei que tivesse campanha durante o ano inteiro, não só no Carnaval”, diz Fabrício. Ele nunca chegou a ter problemas com homofobia, mas seu companheiro sim. “Uma vez estava beijando um garoto na Treze de Maio e jogaram uma garrafa de água na minha cabeça”, conta.

Também de João Pessoa, Rafaela Faria tem a frase “sai, hétero” tatuada na nuca. Para ela, de fato, o Carnaval é uma bolha de aceitação. “As pessoas acham que é brincadeira, por isso aceitam que a gente beije aqui.”

Caio Cézar e Felipe Marinho vieram da cidade vizinha de Paulista para passar o feriado em Olinda. Eles dizem que não temem atos homofóbicos por estarem em um polo gay e por ser Carnaval. “Fico surpreso com algo assim vindo da iniciativa pública”, diz Caio sobre a campanha. “Acho fundamental e necessário. Sofremos preconceito até dentro da escola. Eu, por exemplo, faço engenharia civil e lá é complicado para mim.”

Para Filipe de Souza, coordenador de política LGBT de Olinda, a situação é complicada. “Nosso plano é capacitar guardas e policiais da cidade para que eles saibam lidar com gays, travestis e transexuais. Olinda é uma cidade turística, é muito difícil ver esse tipo de coisa acontecendo. O público LGBT recorrendo às autoridades sem conseguir ajuda."

Filipe diz acreditar que é preciso “desconstruir” a imagem do LGBT que predomina na cidade. “Já fizemos esse trabalho com guias turísticos e taxistas.” O coordenador prevê que somente após o Carnaval eventuais denúncias de crimes de teor homofóbico devem surgir.

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