Recife e Olinda

Na terra do frevo, rainhas de bateria ralam e bancam a própria fantasia

Tiago Calazans/UOL
Técnica em contabilidade, Marta se dedica ao samba quando chega o Carnaval. Ela é rainha de bateria da escola Galeria do Ritmo, e garante: "Na terra do frevo, ser sambista tem que ter paixão e resistência" Imagem: Tiago Calazans/UOL

Mateus Araújo

Colaboração para o UOL, no Recife

28/02/2017 12h34

Marta França, 31 anos, anda apressada e nervosa pela avenida Dantas Barreto, no centro do Recife, em busca de acessórios para sua fantasia, que ela precisa colocar antes de entrar no desfile. A mãe dela, dona Laudiceia, carrega sacolas e tenta acompanhar, com cansaço, os passos da moça. Três voltas na rua e, finalmente, os figurinistas aparecem e transformam um trecho do camelódromo em camarim. Faltam poucos minutos para a apresentação.

Rainha de bateria da escola Galeria do Ritmo, ela garante: "Na terra do frevo, ser sambista tem que ter paixão e resistência". Há 12 anos à frente dos percussionistas da agremiação, a moça diz amar o que faz e se entrega ao ofício de corpo e alma. "Para ser rainha de bateria tem que estar presente no dia a dia da escola, contribuir com ela e se bancar". Foi ela quem pagou a própria fantasia inspirada em uma baliza (o enredo deste ano é dedicado a Chacrinha). A criação -- que abusa de brilhos, pedras e penas -- lhe custou R$ 3 mil.

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Marta França, 31 anos, anda apressada no centro do Recife em busca de acessórios para sua fantasia Imagem: Tiago Calazans/UOL

Marta França é bailarina popular e chegou à Galeria através de um concurso feito com outras passistas. "Entrei musa, depois passei para rainha. Só não desfilei nos últimos dois anos porque estava de resguardo religioso no candomblé", explica a majestade, que é filha de Oxum --orixá da beleza e do ouro.

Longe de qualquer glamour a que os brasileiros associam o universo das escolas de samba, no Recife essas agremiações vivem de esforço e criatividade para conseguir levar um desfile à rua. Tudo é improvisado, mas feito com um amor visível.

Na "vida real", Marta é técnica em contabilidade. Mora com a mãe e o marido (ele também é integrante da escola de samba), na Macaxeira, comunidade da zona norte do Recife, mas afirma que abraçou o vizinho Morro da Conceição, bairro onde fica a sede da Galeria.

A rainha de bateria ficou pronta em cima da hora. Era 1h da madrugada, e seu grupo já estava na avenida. Ela precisou correr ainda mais para conseguir entrar na passarela do desfile. Passou no meio de várias alas até chegar ao seu posto, na hora exata de sorrir e evoluir em frente à comissão julgadora. Dali por diante, reinou em seus poucos minutos de fama.

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Luciane Santos, a Preta, rainha da Gigante do Samba Imagem: Tiago Calazans/UOL

Vigilante e madrinha de bateria

A Galeria do Ritmo, da qual Marta é rainha, é uma das duas mais conhecidas escolas de samba do Recife. A agremiação praticamente reveza os títulos de campeã com a adversária Gigante do Samba, vencedora do concurso em 2016, que tenta agora o décimo título.

Quem brilha na Gigante é Luciane Santos -- "pode me chamar de preta" -- a vigilante de uma policlínica que, no Carnaval, é a musa dos ritmistas do grupo da Bomba do Hemetério, também uma comunidade da zona norte da cidade.

"Não temos nenhuma relação de proximidade, mas a rivalidade é só na avenida mesmo", se antecipa a rainha, se referindo à relação com Marta França, sua "adversária". Mais pontual do que sua concorrente, Preta já estava na concentração do desfile enquanto a bateria se organizava. Acena, tira foto e atende a todos com um sorriso.

Faz cinco anos que a vigilante deixa de lado a farda para vestir maiôs brilhosos e espanar as plumas da fantasia pela avenida do samba. "Cheguei aqui a convite da mulher do presidente da escola. E aprendi tudo sozinha, assistindo vídeos de outras rainhas. Sempre frequentei as escolas de samba, mas nunca imaginei que seria rainha", conta a majestade, que é torcedora da Mangueira e admiradora da carioca Evelyn Bastos.

Luciane tem 46 anos, dois filhos e é assistida pelo marido. "Ele me dá apoio". Neste ano, a rainha ostenta uma fantasia inspirada nas realezas do império romano, que custou um sacrifício financeiro de R$ 5 mil. "Mas tudo vale".

Marta e Luciane são personagens de um Carnaval pouco conhecido pelos próprios conterrâneos. Um Carnaval que, embora não faça parte da fama pernambucana, transforma a cada ano pessoas comuns em estrelas, mesmo que por apenas uma noite. Pessoas que alimentam sonhos e que se esforçam como podem para fazer a festa delas e de tantos outros.

O resultado da disputa entre Galeria e Gigante será anunciado aos recifenses na próxima quinta-feira (2). A escola campeã desfile novamente no dia 12 de março, aniversário do Recife.
 

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Faz cinco anos que a vigilante deixa de lado a farda para vestir maiôs brilhosos e espanar as plumas da fantasia pela avenida Imagem: Tiago Calazans/UOL

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