As escolas cariocas e o desafio da reinvenção em meio à crise

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Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira, e Alcione Imagem: Facebook/Reprodução
Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

30/01/2018 19h51

Faltam 10 dias para o Carnaval. Certamente, o de preparação mais conturbada para as escolas de samba cariocas, que tiveram seus preparativos prejudicados pelo corte inesperado de verbas por conta da Prefeitura, pelas interdições de barracões pelo Ministério do Trabalho e pela crise econômica, que afastou patrocinadores e público – ainda há ingressos de arquibancada disponíveis para as duas noites de desfile. Sintomas de um processo de esvaziamento do desfile da escolas motivado, sim, por um diálogo cheio de entraves com o poder público, mas que, indubitavelmente, demonstra que o modelo de organização dos desfiles cariocas precisa mudar.

O modelo de financiamento dos desfiles nos últimos 20 anos, baseado no binômio incentivo público/enredo patrocinado, está falido. Com orçamentos apertados, os governos das três esferas diminuirão, ainda mais, os incentivos para eventos culturais, partindo para parcerias com a iniciativa privada. E os enredos sobre marcas ou cidades, estados e países já estavam escassos nos últimos anos. Empresas não patrocinam mais escolas de samba para divulgar seus produtos – talvez, escoladas com o que aconteceu com a Unidos do Porto da Pedra em 2012, que com seu enredo sobre o iogurte, patrocinado por uma grande empresa do ramo, virou case de desfile equivocado na temática e desenvolvimento estético/visual.

Em entrevista ao UOL, o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, foi curto e grosso a respeito do momento das escolas de samba carioca: “Estamos divorciados do povo”, afirmou. Ao passo que se tornou um grande espetáculo para a televisão e para os turistas, o Grupo Especial carioca afastou-se das suas bases populares. Cada vez menos integrantes das comunidades estão nas arquibancadas e nas quadras. A pá de cal foi a decisão da Liesa de cancelar os ensaios técnicos. Única oportunidade para milhares de cariocas terem um contato próximo com as escolas nos finais de semana do verão, os treinos foram inviabilizados, segundo os dirigentes, como consequência direta do corte de subvenção.

Com menos verbas e mais distante do povo, o Carnaval das escolas de samba tem que procurar uma gestão mais moderna e profissional, alinhada com as novas técnicas de marketing e, sem sombra de dúvidas, valendo-se das redes sociais e das ferramentas digitais para conquistar espaço no mercado. Ao se transformar em um show voltado para os turistas, o desfile das escolas de samba corre o risco de perder a base popular que o criou e o sustentou. Se, em tempos de crise, há retração de investimentos, sejam públicos ou privados, também há espaço para que se encontrem soluções criativas. E é para este lado que os dirigentes das escolas de samba precisam apontar.

A exemplo de colegas cariocas, estive no último final de semana em São Paulo e pude constatar o investimento que a liga local está fazendo para que o desfile das agremiações paulistanas se equipare, em imponência e relevância, ao carioca. Evidentemente, por toda a tradição, o Carnaval do Rio ainda está muito à frente. Mas, o que foi observado na “Terra da Garoa”, faz crer que já passou da hora dos sambistas cariocas saírem do berço esplêndido onde estão deitados.

Anhembi com grande público assistindo aos ensaios técnicos. Ótima estrutura para o público, com lanchonetes e facilidade de acesso a vários setores. Quiosque da Liga, vendendo CDs, camisetas e diversos produtos licenciados das escolas. Fácil acesso à imprensa, que consegue desempenhar seu trabalho com tranquilidade. Sem falar na quantidade de eventos realizados ao longo do ano que estão fortalecendo os laços culturais dos paulistanos com as escolas de samba. Como destaque, a festa de lançamento do CD, que foi praticamente um mini-desfile das escolas, com ampla participação popular.

O Carnaval nasceu, germinou e cresceu no seio do povo. E, neste momento delicado, é para ele que deve ser voltar. É fundamental o investimento em estratégias de fidelização de público, que se busque a captação de grandes anunciantes com pacotes modernos de comercialização e que faça o evento ser, se não autossuficiente em um primeiro momento, cada vez menos dependente das verbas públicas. Que as escolas de samba cariocas saibam, após todas as tormentas enfrentadas neste pré-Carnaval 2018, aprender as lições e partir para um novo momento a partir da quarta-feira de Cinzas.

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