Em treino, Mocidade e Portela mostram que estão prontas para o bicampeonato

Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

05/02/2018 14h16

Desde a crise entre os dirigentes do Carnaval carioca e o prefeito Marcelo Crivella, os sambistas sofreram com vários revezes – alguns, motivados pela Prefeitura, é bom que se diga. Porém, nada foi pior para a folia do que o cancelamento da temporada de ensaios técnicos – decisão, cabe destacar, da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba).  Os treinos, que há 15 anos levavam milhares de pessoas por fim de semana à Sapucaí e tornaram-se programa obrigatório para o verão de cariocas e turistas, resumiram-se, na atual e conturbada temporada em apenas uma data: a do teste de luz e som, aberta pela lavagem da passarela pelas baianas das escolas. Como atrações principais, as duas campeãs de 2017: Portela e Mocidade Independente.

Era de se esperar que as duas escolas, com  torcidas gigantescas e vindas da quebra de incômodos jejuns de títulos, fariam a Marquês de Sapucaí bater todos os recordes de público na temporada pré-carnavalesca. Até o tempo ajudou: a temperatura agradável e a ausência de chuva seriam ingredientes a mais para que o povo acorresse ao Sambódromo. Porém, alguns setores de arquibancadas ficaram vazios. Nem a saudade dos sambistas foi capaz de fazer a passarela lotar. O que é preocupante e demonstra que, se nada ocorrer em curto prazo, as escolas de samba correm o sério risco de ficar em segundo plano dentre a preferência dos foliões cariocas.

Os trabalhos – literalmente – foram abertos com um belo espetáculo de ecumenismo embalado por  orações, atabaques, música de Roberto Carlos e pontos de umbanda. A já tradicional lavagem da pista pelas baianas das escolas cariocas teve um especial significado neste ano, tão marcado por divergências em grande parte atribuídas à mistura de administração pública com opção religiosa. O cantor Dudu Nobre, com o apoio de vários intérpretes das escolas, entoou clássicos do samba-enredo, além dos sambas para 2018. Mesmo com a atmosfera mais leve, o público não se esqueceu do prefeito e entoou coros impublicáveis em sua “homenagem”.

Após uma certa demora por conta de problemas com o som, a Mocidade Independente de Padre Miguel mostrou que está pronta para conquistar o bicampeonato. Apoiada por um dos melhores sambas do ano, a verde e branca fez um ensaio correto, com os componentes evoluindo com desenvoltura e cantando a plenos pulmões. Comandando o carro de som, Wander Pires deu mostras que atingiu a maturidade como intérprete, cantando de forma precisa, sem muitas firulas e mantendo a constância.

A comissão de frente, comandada pela dupla Saulo Finelon e Jorge Texeira, brindou o público com mais um voo do drone Aladim, sucesso do Carnaval passado. A bateria de mestre Dudu sustentou o ritmo e deu ao belo samba a funcionalidade necessária, mas sem perder a velha cadência característica da Mocidade. Enfrentando um público relativamente contrário (os portelenses, em maioria na avenida, até hoje não aceitam a divisão do título de 2017) a Mocidade não se abalou e desfilou com muita competência.

Competência também não faltou à Portela. Especialmente por ter desfilado, com rara empolgação, com um samba que nem de longe tem o grau de brilhantismo que a obra de Padre Miguel. A bateria, do mestre Nilo Sérgio, optou por um andamento um pouco mais acelerado do que o habitual e este se mostrou acertado. A Portela flutuou na avenida e arrancou muitos aplausos com sua comissão de frente, do coreógrafo Sérgio Lobato, que trazia malas que se abriam e saudavam os 22 títulos da Portela. Desfilando juntos pela primeira vez no Grupo Especial, a porta-bandeira Lucinha Nobre e seu par, o paulistano Marlon Lamar, mostraram que a coreografia para o desfile está ajustada.

Compacta e animada, a Portela manteve o pique até o final de seu ensaio. E ainda trouxe uma bela iniciativa: convidou componentes das demais escolas para participar do cortejo. Velhas guardas e baianas estiveram presentes, colorindo a avenida de tons um pouco diferentes do azul e branco habitual. Encerrando o ensaio, uma congregação de bandeiras de torcidas das mais diferentes escolas de samba cariocas. Em um momento que vivemos um grau inédito de  intolerância em todas as esferas, um belo exemplo de generosidade e fair play.

No próximo final de semana, as escolas estarão na pista da Sapucaí. Desta vez, para lutar pelo título. E, no que demonstraram hoje, Mocidade e Portela estão qualificadíssimas para subir, mais uma vez, no degrau mais alto do pódio na quarta-feira de Cinzas.

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