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Anderson Baltar

Por que a Beija-Flor não merece ganhar o Carnaval de 2018 no Rio de Janeiro

Silvia Izquierdo/AP
Cena do desfile da Beija-Flor no Carnaval de 2018 Imagem: Silvia Izquierdo/AP
Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

Colaboração para o UOL, no Rio

14/02/2018 08h20

O desfile das escolas de samba é movido por paixão. A paixão que mobiliza milhares de pessoas a defenderem o pavilhão de sua escola e que faz milhões virarem a noite à frente da televisão. Mas, por outro lado, possui critérios bem definidos para que conheçamos a escola campeã.

Saudado por grande parte do público, o desfile da Beija-Flor tem o mérito de ser a válvula de escape de um povo, que desde 1500 sofre com o descaso e o abandono das autoridades, vê a violência pública aumentar e os investimentos em saúde e educação serem congelados por 20 anos. Este discurso, amplificado por um ótimo samba-enredo interpretado por um monstro sagrado como Neguinho da Beija-Flor, torna-se realmente irresistível.

Porém, na frieza dos quesitos, o desfile da Beija-Flor torna-se frágil. Sobretudo quando analisamos a proposta artística. Para começar, o cortejo não tem uma uniformidade de criação: de seus cinco setores, quatro foram elaborados por Marcelo Misailidis, coreógrafo da comissão de frente e recém-guindado ao cargo de responsável pelos trabalhos no barracão da azul e branca. A parte final do desfile ficou por conta da Comissão de Carnaval da escola.

Cristiane Mattos/Futura Press/Folhapress)
Estudantes usam roupas "normais" no desfile: faltou a carnavalização Imagem: Cristiane Mattos/Futura Press/Folhapress)
O resultado mostrou-se desigual. Seria como se numa mesma festa fosse permitido usar black tie e trajes de banho.

Um conceito importante que devemos ter em mente ao assistir ao desfile de uma escola de samba é o da carnavalização. Ou seja, de como uma ideia vinda do mundo real ou abstrato pode ser materializada em alegorias e fantasias.

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Escola de samba não é igual bloco de rua, onde podemos vestir uma roupa de super-herói ou de marinheiro e brincar. Um personagem destes em um desfile de escola de samba passa por um tratamento especial, com a criação de figurinos específicos reproduzam a ideia de uma forma criativa e pouco óbvia. Ou seja, dentro dos parâmetros de julgamento de um desfile de escola de samba, um jogador de futebol não pode ser representado por pessoas com chuteiras, meiões e camisetas. O desfile da Beija-Flor usou e abusou de imagens sem qualquer espécie de carnavalização.

Evidente que a assimilação da mensagem fica até mais fácil para o grande público, mas, como forma de contar o enredo é pobre. Carnavalizar é transformar, modificar, escrever dentro das entrelinhas. É pegar a sucata e transformar em ouro. Joãosinho Trinta, na mesma Beija-Flor, cansou-se de fazer isso. O melhor exemplo é o icônico “Ratos e Urubus...”, de 1989, quando, após uma impactante abertura com mendigos e o Cristo proibido, fez um desfile luxuosíssimo lançando mão de materiais baratos e alternativos.

 A graça do Carnaval é essa: transformar um copinho de plástico em um adorno que parece de ouro. A Beija-Flor não teve esse cuidado. Usou, numa simulação de sala de aula, banquinhos plásticos – daqueles que podemos comprar no comércio popular. A carnavalização também não se fez presente nas encenações e, em muitos casos, resvalaram no mau gosto. Por que encenar a tragédia de Realengo, em que um estudante atirou em vários colegas de turma? Qual o sentido de trazer um policial com um rombo no seu peito, agonizando em plena avenida? Não haveria formas mais leves e inteligentes de tratar desses assuntos sem que causasse choque?

Apesar de tantos erros conceituais, a Beija-Flor aparece como favorita. Porém, a sua vitória não fará bem ao Carnaval carioca. Envolvido em uma crise de identidade, perdido entre o samba no pé e a necessidade dos telões de led e com a credibilidade no julgamento abalada após as viradas de mesa de 2017, tudo que precisamos é que os julgadores prestem atenção no que o manual de julgamento preconiza.

Mauro Pimentel/AFP
Encenação de violência no desfile resvalou no mau gosto Imagem: Mauro Pimentel/AFP
Não é justo e correto que outras 12 concorrentes, cujos profissionais pensam, por meses, em um conceito de desfile e em deixar suas alegorias e roupas bem acabadas e inteligíveis, percam para um festival de carros sem cuidado e não-fantasias passando – em uma das alas, o traje era um short de futebol e camisas de algodão da cor laranja, daquelas compradas em malharias.

A história do Carnaval carioca registra que o exemplo dos vencedores sempre é seguido pelas demais. Neste momento de retomada que o Carnaval carioca necessita, é fundamental que o julgamento se atenha ao que se propôs e premie quem fez mais bonito dentro dos quesitos. A Beija-Flor pode vencer? Pode. Escorada pela comoção pública e pela força dentro dos bastidores – o que pode fazer influência sobre alguns jurados mais despreparados.

A Beija-Flor é uma escola maiúscula, orgulho da Baixada Fluminense e amada por milhões de brasileiros. Mas ela não merece vencer o Carnaval 2018 com um espetáculo tão mal planejado e executado. Este tipo de estética não pode se tornar predominante.

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