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Anderson Baltar

Fazer Carnaval é um ato político, diz carnavalesco criador do vampiro Temer

Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Tuiuti levou até vampiro com uma faixa presidencial, em alusão a Michel Temer Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

11/05/2018 10h20

Jack Vasconcelos se autodefine como um operário de barracão. Avesso às badalações e de carreira consistente dentre os carnavalescos da nova geração, viu sua vida mudar em pouco mais de 70 minutos. Após a passagem do Paraíso do Tuiuti pela Sapucaí no Carnaval 2018, ganhou manchetes de todo o mundo com as audaciosas alegorias e fantasias do desfile da agremiação de São Cristóvão. Duas de suas criações suscitaram apaixonados debates políticos de norte a sul do país: a caracterização do presidente Michel Temer como um vampiro e a ala dos “manifestoches”, ironizando os protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Neste domingo, Jack lança o enredo do Tuiuti para o próximo Carnaval. E, mais uma vez, promete crítica e ironia na Sapucaí. Ainda sem título, o tema versará sobre a história do bode Ioiô – uma lenda da cultura cearense e que, segundo o dito popular, chegou a ser eleito vereador em Fortaleza, sendo um símbolo do voto de protesto décadas antes do surgimento de personagens como o Macaco Tião (símio do zoológico carioca que recebeu votações expressivas nos anos 1980). Nesta entrevista exclusiva, o carnavalesco faz um balanço sobre tudo que aconteceu no último Carnaval e fala um pouco do enredo do Tuiuti para 2019.

Você esperava tudo o que aconteceu no desfile do Tuiuti?
Sinceramente, não. Eu estava fazendo o melhor possível para não ser rebaixado. Afinal, o Tuiuti estava pelo segundo ano no desfile principal e, para alguns jurados, o peso de bandeira conta. Para mim, era uma preocupação a mais vir entre duas escolas com poder aquisitivo grande, como a Vila Isabel e a Grande Rio, com carnavalescos de peso (Paulo Barros e Paulo Menezes na Vila e Renato Lage na Grande Rio). E o carnavalesco fica muito exposto nessa comparação direta. Eu tinha consciência de que a escola estava se preparando bem nos ensaios, como os quesitos estavam bem. Estávamos caminhando para apresentar um desfile muito bom, mas tinha dúvidas de como isso seria analisado pelos jurados e consumido pelo público. Graças a Deus, uma preocupação que não se confirmou.

Quando você sentiu que tinha alguma coisa acontecendo?
Só no final do desfile. Eu fiquei na concentração observando a montagem de todos os carros. Eu não vi o desfile, não sabia do que estava acontecendo, entrei no final da escola. E quando vi a arquibancada vindo abaixo, fiquei meio anestesiado. Não sei dizer das coisas que fiz. Não me lembro. Tinha muito medo do final da escola, com as alas com críticas às reformas do governo e aos manifestantes pelo impeachment, não serem bem recebidas. E isso não aconteceu.

Aconteceu uma aclamação. Você tem algum relato de algo curioso que tenha acontecido quando os “manifestoches” passaram na avenida?
Uma atriz da Globo, que virou meu contato no Instagram, me procurou para contar que, no camarote onde ela estava, quando a ala passou na frente deles, rolou uma “torta de climão” (risos). As pessoas começaram a se entreolhar, naquele silêncio incômodo, como um elefante na loja de cristal (risos). O interessante nisso tudo é que não houve vaias. E não era nenhuma surpresa, já que os desenhos das fantasias já haviam vazado e sido noticiados pela imprensa.

Você acha que foi um momento em que muitas pessoas fizeram uma reflexão? O Carnaval tem o poder colocar o Brasil em um divã?
Fazer Carnaval já é colocar o Brasil no divã. Me perguntaram se os enredos políticos entrariam na moda. Para mim, fazer Carnaval já é um ato político. Eu não preciso falar de política partidária para isso. Eu poderia bolar um monte de explicações incríveis para posar de herói, mas estaria mentindo. Porque quando planejei o meu desfile, era uma coisa muito óbvia para mim, era uma mensagem que eu queria passar porque achava coerente. Não tinha nenhuma intenção de causar impacto. A coisa aconteceu foi porque foi de verdade. O enredo foi feito numa hora muito boa, em um momento em que todos precisam parar de brigar e pensar nos motivos que nos levaram a esse ponto. É um sistema de muitos anos, uma mentalidade que vem há séculos e a culpa não é de A, B ou C ou de determinado partido. Tudo vem de um contexto de intolerância social, racial, sexual, etc. Acho que as pessoas se identificaram com a mensagem. Por isso deu certo.

De uma hora para outra, você ficou famoso em todo o país, sofrendo assédio da imprensa e nas redes sociais. O que mudou na sua vida?
Não imaginava e não busquei nenhuma exposição. Acredito muito na linguagem carnavalesca para poder me comunicar e fazer o que acredito. Mas eu tenho ressalvas em relação à construção da imagem do ídolo, do artista inalcançável. Sempre tive um pé atrás com isso, porque acredito muito no resultado do trabalho e de todos que cercam esse trabalho. O sucesso do Tuiuti não foi meu, foi de todos os componentes. Eu posso ser um catalisador, mas não sou estrela. Eu não quero isso para mim.

Mas você começou a ser assediado nas redes sociais...
Bloqueei muita gente e inclusive tive que lidar com aquele povo do MBL (Movimento Brasil Livre). Tive várias entrevistas deturpadas. Teve gente que inventou na internet que eu era rico e que era fácil ter discurso de esquerda caviar. As pessoas escrevem as coisas e não têm limite. Entravam na minha página pessoal para me xingar. As minhas redes sociais eram abertas e tive torna-las privadas por segurança. A maioria das pessoas não sabem como é uma escola de samba e, nessa ocasião, reparei que elas não querem nem saber como é. Só querem esculhambar, afinal elas estão “certas”. Isso machuca pra caramba. Eu não sabia o que era sofrer bullying desde os tempos do colégio (risos).

Por outro lado, você virou um herói da esquerda brasileira.
Eu só não fico bem dentro de um maiô vermelho (risos). Não foi algo que persegui, não sinto uma proximidade com esse mundo da política formal. Jamais me candidataria a um cargo eletivo.

O que aconteceu no desfile das campeãs com o vampiro, que desfilou sem faixa?

Isso virou um folclore dentro da escola. Ninguém afirma o que foi. Quando estava montando a escola, para mim estava tudo certo. Vim desfilando atrás do último carro e uma repórter veio me perguntar da faixa. Eu não sabia de nada. E ninguém me disse até hoje. Cada um fala uma coisa e ninguém me responde. Mas não me importo. O estrago já foi feito. O importante era ter passado no desfile oficial. Se alguém pediu para tirar, a emenda foi pior que o soneto.

Para 2019, você aposta em mais um tema com viés político, sobre o bode Ioiô, que, segundo a lenda, foi eleito vereador em Fortaleza. Esse enredo já estava na sua cabeça?
A história do bode chegou à minha mão há alguns anos, pelo jornalista e enredista João Gustavo Melo, que é cearense. Ele me deu a dica logo depois que fiz o enredo do boi mansinho (apresentado no Carnaval 2016, quando o Tuiuti ganhou o Grupo de Acesso). A história é muito boa, mas achei que tinha que esperar um pouco porque havia acabado de fazer um enredo sobre boi.  Depois do Carnaval, tirei férias e viajei bastante. Na volta, comecei a puxar as ideias antigas e me lembrei desse tema. O bode me traz coisas interessantes, como a possibilidade de continuar falando de política, mas sem ser panfletário. Ele tem uma coisa que eu gosto muito, que é o exotismo, uma coisa peculiar.

É o Macaco Tião nordestino?
Ele é mais do que isso. O Ioiô é um personagem fundamental na cultura cearense, não é datado. Ele virou um ícone de resistência da cultura popular, já que ele simbolizava tudo que a elite queria acabar. Fortaleza vivia a Belle Époque e havia todo um movimento das elites em “higienizar” a cidade e “civilizar” os hábitos. Para a elite, a cultura popular era sinônimo de atraso e o bode resistia, passeando por lugares chiques ao lado dos intelectuais. Vou abordar isso no desfile. Inclusive a mitologia sobre a suposta eleição dele, que não passa de história contada pela tradição oral. Não há registro disso em nenhum jornal. Afinal, não era interessante que a história dele fosse propagada.

A exemplo do tema do Carnaval passado, o enredo terá algum link para os dias de hoje?
As pessoas vão conseguir detectar semelhanças com o que passamos hoje em vários momentos do enredo. Vamos falar de fatos históricos, mas que trazem os mesmos problemas e necessidades dos dias de hoje. Eu acredito que o voto seja o bem mais precioso da democracia e é algo que não podemos desperdiçar, até porque o lado de lá não o desperdiça. O voto é individual e as consequências são comunitárias. E o brasileiro não foi educado a valorizar isso e assumir sua responsabilidade. Sempre esperamos um salvador da pátria.

Você acha que os desfiles do Tuiuti e da Beija-Flor, pelas polêmicas que levantaram, fizeram reacender o interesse no brasileiro médio pelo desfile das escolas de samba?
Acho que sim. Pelo menos deu uma balançada nesse cenário. E foi muito bom termos a resposta de pessoas que não estavam mais acompanhando o Carnaval ou até de uma geração que nunca prestou atenção. Que o Carnaval não é uma festa alienante, não é o ópio do povo. E é muito bom que isso aconteça. Como é uma festa feita pelo pobre – porque a mão de obra é humilde, pessoas excluídas, sem a aparência e a escolaridade que o mercado exige... é muito bom saber que as pessoas estão se interessando por algo feito por essa gente. Estamos atraindo um público que achava que escola de samba era um subproduto e, desta vez, se sentiu representado por ela.

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