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Anderson Baltar

São Clemente reedita enredo de 1990 para criticar Carnaval "longe do povão"

Júlio César Guimarães/UOL
Desfile da São Clemente no Carnaval de 2018 Imagem: Júlio César Guimarães/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

10/06/2018 19h35

A São Clemente, 11ª colocada no último Carnaval, lançou neste domingo (10) o seu enredo para 2019. Em busca de retomar sua identidade crítica e brincalhona, a amarela e preta de Botafogo aposta na reedição de um de seus mais marcantes desfiles. "E o samba sambou", que levou a escola ao sexto lugar em 1990, será apresentado na Sapucaí com uma nova roupagem, sob a direção artística do carnavalesco Jorge Silveira, que, em poucas palavras sintetiza o momento da escola.

"A São Clemente está chateada e vai para a avenida com o pé na porta", avisa Silveira. De acordo com o carnavalesco, que vai para o segundo desfile à frente do barracão da São Clemente, o momento do Carnaval é propício à escolha da reedição do enredo.

"Não foi o caso de simplesmente pegarmos um bom samba do passado. O momento de descrédito do Carnaval carioca, após duas viradas de mesa e o seu afastamento do povão, pedem a volta deste enredo. Será um grito de alerta contra todo esse quadro", defende.

Em sua nova roupagem, "E o samba sambou" aprofundará as questões apresentadas no desfile original. Se em 1990 a São Clemente alertava contra o afastamento das escolas de samba de suas comunidades, criticava o troca-troca de componentes e pedia um desfile mais baseado no samba do que nos aspectos visuais, em 2019 o enredo agregará outros problemas.

Bruna Prado/UOL
Desfile da São Clemente em 2018 Imagem: Bruna Prado/UOL
"A Sapucaí cresceu e os problemas também. Hoje temos aqueles camarotes onde se toca todos os tipos de música, menos o samba --o que é uma profanação. Também criticaremos as disputas de samba, onde os compositores sem dinheiro não têm condições de participar", explica o carnavalesco.

O objetivo, com um enredo tão ousado, é marcar definitivamente uma retomada nas tradições da São Clemente. A escola, que nos anos 80 fez uma sequência de enredos críticos e politizados, atacando os principais problemas nacionais, acabou mudando de estilo para poder se enquadrar nos padrões do Carnaval.

Segundo Jorge Silveira, o que motivou a mudança foi a enxurrada de notas baixas que a escola recebeu em seu último desfile. "Ficamos muito chateados em ver que nossa proposta não foi aceita. Com isso, resolvemos retomar a verve sacana da São Clemente e vamos 'chutar o balde'", promete.

Divulgação
São Clemente reeditará desfile de 1990 com críticas ao Carnaval Imagem: Divulgação
Para bolar o enredo, que conta com desenhos de fantasias concluídos e planejamento de alegorias em finalização, Jorge Silveira fez um incessante trabalho de pesquisa. "Passei mais de dois meses assistindo todos os vídeos possíveis dos desfiles antigos da São Clemente. Tudo isso para reconstruir a característica principal da escola. Vocês podem esperar uma escola com fantasias leves e divertidas e com predominância do amarelo e preto --do jeito que nossos componentes gostam", relata.

No último setor do desfile, a São Clemente relembrará os momentos em que seus enredos deram alertas sobre problemas do país. Carnavais sobre os problemas da saúde (1984), da educação (1992), do menor abandonado (1987) e da violência (1988) passarão novamente nas alas da escola de Botafogo.

"Vamos encerrar o desfile reafirmando que a São Clemente sempre avisou e praticamente nada mudou neste país. Mas nós continuaremos alertas e sempre colocando o dedo na ferida", ressalta o carnavalesco.

Confira a sinopse da escola:

E o Samba Sambou.
No jogo do amor e do samba não tem regras: ou se tem, depende. Cartas na mesa, mesa virada. E o amor ao samba? Ah, camarada... Tudo tem seu preço e seu apreço. Quem tem padrinho não morre pagão! O brado retumbante de 90 ecoou com tanta força que se fez profecia: E o Samba Sambou...
Da mesma forma que disse em 90, não sou dono da verdade. Também cometi meus pecados. A mesa virada tem lá minha digital. Assumida. Mas peixe pequeno frita mais rápido que peixe graúdo. Tá dado meu recado. Porém, jocoso que sou, faço piada de mim mesmo. Aliás, tenho isso correndo nas veias: meu DNA foi construído apontando o dedo em riste e sambando na cara da sociedade. Meu histórico me credencia. Basta olhar meu manancial.
Esse de 90 tem um molho especial. Nunca antes na história dessa república se fez tão necessário reviver esse discurso. O planeta samba virou de ponta cabeça, inverteu a ordem, subverteu a lógica. Infelizmente, tudo que foi dito, de fato aconteceu (quiçá piorou!). E não tem jeito, tá na minha raiz primeira. No meio desse turbilhão, eu não podia faltar ao enfrentamento. Já que o recado não foi ouvido da outra vez, vamos novamente ser "fiéis" à nossa conduta e largar o chumbo grosso!
Luz, câmera, negociação: tá no ar mais um espetáculo na tela. É fantástico! O sambista dá lugar a vedete da internet, que usa o GRES para ser manchete. Uma aparelhagem tecnológica digna de cinema ganha mais importância que o gingado generoso da mulata. Não tem jeito: virou Hollywood isso aqui. Mil artistas de verdade, que riscam o chão com sua herança, têm menos espaço na lente da câmera que atriz/apresentadora/promoter. Que sacanagem...
Já começa errado quando a autoridade não reconhece que no carnaval quem manda é Momo! Não entregar a chave a Sua Majestade é um pecado mortal pros súditos da folia. Na pista, ganha o interesse: nossos símbolos culturais são substituídos pelo estrangeirismo barato. E como tem gringo no samba! Camarada, você não imagina o poder de uma credencial: é tanto aspone na avenida que parece que tem duas escolas desfilando ao mesmo tempo. No ritmo do samba moderno, uma correria contra o relógio; um verdadeiro "coopersamba"! E o povão...? É, esse ficou de fora da jogada. Nem lugar na arquibancada ele tem mais pra ficar. A grana entope os camarotes de sertanejo, música eletrônica e de todo tipo de som, menos o próprio dono da festa: o samba. Que mico minha gente... Olha o que o dinheiro faz!
E por falar na grana, hoje a rainha paga para sambar. Um verdadeiro dote de privilégios. Cadê as meninas da comunidade riscando o asfalto? Tudo tem seu preço e seu apreço camarada... elas fazem tudo para aparecer na tela da TV, no meio desse povo! E a mídia "toda poderosa" controla tudo a seu bel prazer. Até mesmo a opinião pode ser comprada! Como não? Até o samba é dirigido com sabor comercial. Tem que ser registrado, carimbado, protocolado no escritório: uma verdadeira exportadora de "bois-com-abóbora".
E o samba vai se vendendo às vaidades, sendo usado como plataforma para fulano, beltrano e quem mais quiser seus 15 minutos de fama. Que covardia... Carnavalescos e destaques vaidosos transformam a Sapucaí num verdadeiro ringue aos seus insaciáveis egos. E o samba vai perdendo a tradição...
Mas eu sempre avisei. Eu sempre falei. E você sabe disso: o boi voou e denunciou a roubalheira, a galhofa, a bandalheira. Era profecia de uma chacota nacional. Eu, pequenino, quase rodei esse ano, triste feito um cão sem dono. Mas como "quem casa quer casa", tô apaixonado pelo lugar que conquistei. "Não adianta jogar água malandragem", "eu mato a saúva antes dela me matar".
Temos que cuidar do samba. Segurar essa mesa no lugar. Caso contrário, nem povão na arquibancada vamos ter mais para nos aguardar, afinal "Quem avisa amigo é".
Temos que segurar firme essa onda. Pelo amor que temos ao samba, vamos preservar esse “antigo reduto de bambas”, para que as gerações futuras possam ainda curtir o verdadeiro samba.

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