RJ: Sorteio pode gerar desequilíbrio entre as noites de desfile do Carnaval

Bruna Prado/UOL
Desfile das Campeãs - Beija-Flor Imagem: Bruna Prado/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

05/07/2018 19h12

Divulgado nesta quarta-feira (05), o novo formato do sorteio da ordem de desfiles do Grupo Especial para o Carnaval 2019, provocou no mundo do Carnaval uma grande polêmica. Para alguns, serviu para proteger algumas escolas e punir outras. Para outros, pode vir a gerar distorções e desequilíbrio nas duas noites de desfile. De fato, o modelo não agradou à maioria – o que é natural quando surge algo novo e, principalmente, quando a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) passa por uma crise de credibilidade por conta dos dois últimos anos de regulamento rasgado e rebaixamentos cancelados.

Antes de entrar mais detidamente na questão das regras do sorteio, cabe explicar o porquê da importância de obter uma boa ordem de desfile. Para uma escola ser campeã, é fundamental obter uma posição favorável. Historicamente, as escolas que desfilam no domingo têm menos chances de título do que as de segunda. Assim como, na maioria das vezes, a escola rebaixada acaba sendo a que desfila nas primeiras posições de domingo. As postulantes ao título preferem, invariavelmente, desfilar entre a terceira e quinta posições de segunda-feira - momento em que a avenida está “quente” e, geralmente, os jurados já têm uma visão melhor do que já aconteceu nas duas noites e começam a atribuir as notas com a percepção de quem pode ou não ser campeão.

Feito este preâmbulo, vamos aos fatos. Até o Carnaval 2017, a regra era simples: a campeã do Grupo de Acesso abria o desfile de domingo e a penúltima colocada do ano anterior abria o de segunda. As escolas restantes eram pareadas de acordo com o ranking da Liga/ interesse de público e eram sorteadas. Por exemplo, em 2017, a Portela fez par com o Salgueiro e a Beija-Flor com a Mangueira. A cada par, uma escola ia para o domingo, outro para a segunda. Isso garantia que os dois dias de desfile tivessem escolas de peso semelhante, contribuindo para o equilíbrio das apresentações.

Após os acidentes e a decisão de não haver rebaixamento no Carnaval 2017, o Grupo Especial passou de 13 para 12 escolas – o que, em um primeiro momento, causou problemas para o sistema de pares. Mas, ainda assim, foi encontrada uma solução e os pares continuaram. O Império Serrano, que veio do Acesso, abriu o Carnaval 2018. Unidos da Tijuca, 11ª colocada em 2017, iniciou a noite de segunda. E o Paraíso do Tuiuti, que deveria ter sido rebaixado, foi colocado para encerrar a noite de domingo (no sorteio, trocou de posição com a Mocidade Independente de Padre Miguel e foi a quarta a desfilar). As dez escolas seguintes foram pareadas.

Passou o Carnaval 2018 e, mais uma vez, a virada de mesa: Império Serrano e Grande Rio não foram rebaixadas. Com a ascensão da Unidos do Viradouro, o Grupo Especial voltou a ter as 14 escolas de praxe de durante grande parte dos últimos 20 anos (cabe lembrar que a Cidade do Samba, construída para abrigar os barracões, possui 14 galpões). Porém, o sistema de pareamento ficou comprometido com o fato de que Império Serrano e Grande Rio não poderiam ser favorecidos com posições nobres na ordem de desfiles.

Neste ponto, acho um acerto a colocação destas duas escolas nas primeiras posições do desfile de domingo em conjunto com a Viradouro. Apenas não entendi o fato de o Império Serrano abrir, já que, por força do regulamento, essa vaga deveria ser da Viradouro. E não vale argumentar que as regras não valem mais nada, afinal a São Clemente, 11ª colocada de 2018, abrirá a segunda-feira – em conformidade com o regulamento e com inteira justiça. Algumas pessoas disseram que o Império e a Grande Rio poderiam ter essa posição. Discordo. Segunda-feira é a noite nobre e deve ser ocupada por quem está no Grupo Especial por mérito e não por virada de mesa.

Desta forma, com quatro escolas (três no domingo) com posições fixas, tornou-se impossível o pareamento. Afinal, existem apenas quatro vagas disponíveis para domingo e seis para segunda. Para resolver o problema, o sorteio das dez posições diferentes por cada escola, de acordo com a classificação de 2018. A campeã Beija-Flor será a primeira a sortear e a União da Ilha, décima colocada, a última. Quem tirar as bolas numeradas de 1 a 4 desfilará no domingo. As bolas de 5 a 10 garantirão a vaga na segunda-feira. Em seguida, um novo sorteio definirá as posições dentro das noites de desfile.

Porém, esse sistema permitirá algo que o modelo anterior não permitia. Podemos ter, por exemplo, Beija-Flor, Mangueira, Portela, Mocidade e Salgueiro desfilando na segunda-feira, deixando o domingo com um nível mais fraco. Esse é um risco real, mas que pode ser quebrado até pela inusual presença do Paraíso do Tuiuti como segunda escola a sortear sua ordem e com grandes possibilidades de tirar uma vaga no desfile de segunda. Torçamos para que as bolinhas consigam garantir um mínimo de equilíbrio entre as duas noites.

Na verdade, a boa novidade deste sorteio é a proibição das trocas de posições. No sistema antigo, quando uma escola de menor peso político/econômico sorteava uma boa posição, logo era chamada para conversar por uma maior que, invariavelmente, conseguia a troca. Sem a possibilidade de mudanças, estas escolas poderão, com mais tranquilidade, se planejar para fazer bons desfiles e alcançar classificações mais satisfatórias.

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