Jorge Silveira: "O enredo da São Clemente é fundamental pro mundo do samba"

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Jorge Silveira em seu segundo ano como carnavalesco da São Clemente Imagem: Divulgação
Anderson Baltar

Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

13/11/2018 18h31

Um dos representantes da nova geração de carnavalescos das escolas de samba cariocas, Jorge Silveira vai para o segundo ano à frente do barracão da São Clemente. Ele, que no ano passado assumiu a responsabilidade de substituir Rosa Magalhães e fez um Carnaval em estilo clássico, para 2019 resolveu retomar a verve crítica da escola de Botafogo, comandando a reedição de “E o Samba Sambou”, enredo de 1990, que levou a escola ao sexto lugar, sua melhor classificação na história.

Em momento de falta de credibilidade dos dirigentes da festa, o tema promete botar o dedo na ferida e mostrar, na Sapucaí, todos os pecados da superprodução que virou o desfile das escolas de samba cariocas. Nesta entrevista, ele revela o que motivou o enredo clementiano e dá dicas do que a escola mostrará na Sapucaí.

Você está indo para o segundo Carnaval no Grupo Especial e na São Clemente. No ano passado, a escola trazia muita expectativa e o resultado não foi o esperado. Para esse ano, você aposta numa reedição, mas a agremiação trabalha em silêncio. O que aconteceu?

Quando terminou o Carnaval passado, fizemos uma avaliação dos processos. Identificamos os principais problemas e começamos a solucionar. Um dos pontos identificados foi a resposta positiva do público, que avaliou bem as fantasias quando as divulgamos nas redes sociais e a venda foi muito boa. Financeiramente foi importante em um ano de corte de verbas, mas acabamos recebendo muitos componentes que não tinham o comprometimento que queríamos. A escola desfilou de forma fria, com muitos componentes que nem sabiam o samba. Foi um erro estratégico. Nos ajudou a solucionar a questão financeira, mas o desfile se ressentiu.

E qual foi a solução para esse ano?

Ano passado fomos a escola que vendemos as fantasias a um preço mais baixo: R$ 500. Esse ano a estratégia foi absorver 100% do gasto. Não teremos nenhuma ala comercial. É 100% de comunidade para que todo mundo que goste da escola tenha a possibilidade de desfilar. O objetivo é fazer uma seleção de quem estará conosco a partir do ensaio de quadra.

Vocês tiveram que baixar o custo do Carnaval?

Ano passado fomos surpreendidos com o corte das verbas no meio do processo de criação. Neste ano partimos com um projeto mais modesto porque saberíamos que teríamos uma verba menor. Passamos a direcionar de maneira mais inteligente os recursos a um custo ainda mais baixo do que no ano passado. É uma matemática complicada, mas a São Clemente consegue. É uma escola que não deve a nenhum fornecedor ou funcionário. Sabemos dar um passo de cada vez.

O projeto do Carnaval foi reduzido em número de alas ou carros?

Ano passado tivemos seis alegorias e este ano são cinco, sem perda de capacidade de leitura de enredo, mas com grande impacto no custo do desfile. Modifiquei a estrutura de alas. Ano passado eu tinha de 30 a 40% das alas com dois ou mais figurinos. Este ano é uma fantasia por ala. O projeto artístico foi racionalizado para a realidade financeira. Nesse ano tenho chances de levar os 100% do projeto para a avenida. Ano passado chegamos perto dos 90%, o que já é uma boa marca.  Para 2019, parto de um orçamento possível. Já compramos todo o material das fantasias, o isopor, a madeira dos carros.

A escola resolveu voltar à sua veia crítica. A que se deve essa decisão?

Muita gente diz que o enredo surgiu após a virada de mesa do Carnaval deste ano.  Não é verdade. Ano passado eu te dei uma entrevista e foi a primeira vez que admiti que o enredo desse ano seria nesta linha. Já era uma decisão tomada há quase um ano e que me possibilitou um Carnaval de custo mais barato do que ano passado. Esse ano é mais livre, irreverente, colorido. Mais barato e sem plumas. A escola virá colorida, mas usarei muito preto e amarelo. Vamos buscar fortemente a memória emotiva das cores da escola.

Mas a virada de mesa acabou virando um pretexto perfeito para desnudar a crise do Carnaval.

Na verdade, a circunstância do último Carnaval me deu mais argumentos do que eu queria. A vontade que eu tenho é trazer a São Clemente de volta ao seu eixo natural. No ano passado, senti um saudosismo muito grande entre os membros mais antigos em reviver esse sentimento. Algumas circunstâncias me fizeram acreditar que era a hora. Uma foi a morte do Ricardo (Gomes, dirigente da escola, irmão do atual presidente Renato Gomes), que era presidente em 1990. Ele me falava muito do sentimento, da alegria clementiana. Convivendo no barracão, passei a entender a química interna entre as pessoas. A escola tem alma de bloco, no melhor sentido da palavra. É um lugar de grande irmandade, até porque tem um forte núcleo familiar. Acho que a missão do artista em uma escola é caminhar em direção ao sentimento delas. Me senti a obrigação de resgatar a alma do clementiano. Sei das questões políticas do Carnaval, da responsabilidade pelo resultado, mas meu compromisso é fazer um desfile que o componente se orgulhe.

Você não teme represálias pelo enredo?

Se eu tivesse esse medo eu nem sairia de casa. Pensa comigo: aconteceu a virada de mesa e ela é um fato. Com todo o respeito às coirmãs, nenhuma escola teve coragem de falar do problema e alguns jornalistas se calaram. Quero dar voz à insatisfação que todos nós como sambistas temos em relação ao Carnaval. Vamos botar o dedo na ferida e falar tudo. Meu medo é não conseguir falar o que as pessoas gostariam o que eu dissesse. Tenho que jogar a verdade na cara das pessoas, mas com o jeito irreverente e engraçado da São Clemente. É uma crítica, uma maneira de alfinetar, mas para fazer rir e pensar.  Queremos fazer o que a escola fez em 1990: subvertendo a lógica, mostrou os pecados do Carnaval e conseguiu sua melhor classificação falando a linguagem do povo.

A São Clemente pode surpreender como o Tuiuti do ano passado?

O que passa pela minha cabeça é um esforço de fazer com que a São Clemente possa se vestir como ela é. Fazendo com que isso seja confortável para o componente, essa energia pode ser potencializada para o público. A arte, neste momento, tem o compromisso de uma leitura muito fácil. Será o carnaval mais didático e literal que já projetei em minha vida. Quero me comunicar de matéria direta com as pessoas, quero fazer um Carnaval com clareza das informações, para que qualquer pessoa entenda. Se fizermos um desfile com a alma da escola, com esse samba e com leitura de enredo, tenho provas suficientes para achar que a São Clemente terá tudo para chegar a um patamar onde nunca chegou.

Como foi construir um enredo a partir de um samba que já existe e em um panorama onde não há 10 anos não acontece reedição no Grupo Especial?

Outro dia vi um  jornalista em um debate falando que não gosta de reedição. É uma opinião rasa. Enxergar esse momento como uma simples reedição é limitado, coisa de quem enxerga muito pouco. É um enredo novo e quem teve o carinho de ler a sinopse e assistir ao desfile de 1990, vê uma atualização do desfile para as temáticas e problemas dos dias de hoje. Tem outros dois aspectos:  primeiro, é um discurso que se torna necessário para o Carnaval. Com o histórico que tem, a São Clemente não poderia deixar de falar, de ter a obrigação moral de se pronunciar. O presidente não queria no começo, temia represálias, mas eu o convenci que seria a oportunidade de falar o que as pessoas querem fazer. O segundo aspecto é a emoção que esse enredo está causando a emoção nos clementianos. Os componentes que não eram nascidos na época estão empolgadíssimos com a possibilidade de viver esse momento que eles apenas ouvem falar.

Você acha que o recado de 1990 entrou por um ouvido dos dirigentes e saiu pelo outro?

Sim. O então presidente Ricardo, em 1990, falou em entrevista  à época que o desfile era um sinal de alerta para o poder do dinheiro no Carnaval. E hoje tudo é gerido pelo interesse econômico e o samba fica em segundo plano. Se não olharmos para isso a curtíssimo prazo, teremos um futuro bastante efêmero. E hoje temos certeza de que o poder público nos  próximos anos não é nosso amigo e não reconhece o Carnaval como a principal manifestação cultural da cidade. Fazer esse enredo atualmente é fundamental, não só pela São Clemente, mas pelo mundo do samba.

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