As mulheres e o carnaval do "não é não"

Edson Lopes Jr./UOL
Fãs de Rita Lee curtem bloco Ritaleena, que homenageia a cantora Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Bruno Ribeiro, Ana Paula Niederauer e Matheus Prado

São Paulo

05/02/2018 09h33

A mensagem que parece óbvia está colada no corpo das meninas neste carnaval: "não é não". Uma campanha feita por meio de financiamento coletivo na internet conseguiu arrecadar mais de R$ 20 mil e agora distribui 25 mil tatuagens temporárias. O adereço com a frase "não é não" já chegou a blocos de sete cidades, entre elas São Paulo, Rio, Salvador e Recife.

"Ainda tem cara que pega pelo braço, puxa o cabelo, tenta beijar à força. O que acontece é que, antes, as meninas ficavam quietas. Hoje, elas gritam, respondem, não deixam", disse a estudante de Medicina Thaíse Silveira, de 21 anos, que aderiu à campanha enquanto curtia o carnaval no Acadêmicos do Baixo Augusta, ontem. Ela usava uma camiseta transparente, com os adesivos cobrindo os mamilos.

"O que aconteceu foi que nenhum cara me abordou até agora", contou a dona de cafeteria Raquel de Souza Lima, de 41 anos, que acompanhou o mesmo bloco. Para ela, muitos homens ainda não entendem a diferença entre uma abordagem respeitosa e o assédio. "As mulheres gostam de um elogio que respeita."

As meninas podem comprar a tatuagem pela internet e ainda fazer doações. Os valores variam de R$ 10 a R$ 700 e incluem brindes como vidros de glitter, brincos, camisetas e óculos de sol. Com o dinheiro arrecadado, outras tatuagens estão sendo distribuídas gratuitamente nos blocos.

Em um vídeo divulgado pela internet, as integrantes do grupo explicam que a ideia começou no ano passado, quando 40 mulheres resolveram produzir 4 mil tatuagens para o carnaval do Rio. O movimento teve tanto apoio que foi montada uma campanha maior para 2018.

No sábado, em Pinheiros, na zona oeste, a tatuagem era distribuída no bloco Ritaleena. Gabriela Ramalho, de 28 anos, foi uma das que aceitou o brinde. "Os caras têm de entender."

Alguns homens receberam bem o recado. "Ninguém quer ser alvo de um textão (nas redes sociais) falando que você é um assediador", conta o estudante Filipe Loreto, de 21 anos. "Carnaval é festa. Mas homem que é homem sabe agradar sem forçar a barra", diz.

Agressividade

Mesmo com alguma mudança, as mulheres ainda reclamam de assédio durante o carnaval. Raphaela Godoy, Laura Yumi e Letícia Iamada vieram de Campinas para seguir os blocos de São Paulo neste fim de semana. No sábado, as jovens se preparam para curtir o Casa Comigo - com vestidos, véus e muito brilho -, mas se assustaram com o comportamento agressivo e abusivo dos homens. Mudaram de ideia e foram ao show de Elba e Alceu. "O clima do bloco deixou a gente assustada, então preferimos ir para outro lugar."

"Eu adoro carnaval, adoro dançar. Acho muito legal esse clima de festa. Mas pode acontecer de homens tentarem nos beijar a força", reclamou Elaine Ferreira Vasconcelos, de 19 anos, que foi ao Casa Comigo. Já Aline Ferreira, de 23 anos, acompanhou o bloco pela quarta vez e não viu problemas. "É muito seguro e os homens respeitam as mulheres."

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