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Rio de Janeiro

Com crise e cortes, escolas do Rio apostam em sambas-enredo politizados

Douglas Shneider/UOL
Com samba-enredo ?Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco?, Mangueira atacará gestão da prefeitura do Rio Imagem: Douglas Shneider/UOL

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

19/12/2017 04h00

Em mais um ano de crise, em que patrocinadores andam escassos e a Prefeitura do Rio de Janeiro cortou pela metade a subvenção para a preparação dos desfiles, as escolas de samba do Grupo Especial apostarão, no próximo Carnaval, em um viés de enredo que estava um tanto quanto esquecido: a crítica política. Marca da segunda metade da década de 1980 graças a escolas como Caprichosos de Pilares e São Clemente, os temas engajados estavam em baixa, mas voltam com força total no Carnaval 2018.

Três escolas apostam em enredos claramente panfletários: a Beija-Flor de Nilópolis propõe-se ser o porta-voz da indignação da população marginalizada contra os desmandos dos poderosos; a Estação Primeira de Mangueira, em clara posição de confronto com o prefeito Marcelo Crivella, levará para a avenida um manifesto em favor da cultura popular e contra o direcionamento religioso na vida pública; já o Paraíso do Tuiuti relembrará os 130 anos da Lei Áurea, alertando que a escravidão continua vigente nos dias de hoje.

Momento de desabafo

A Beija-Flor de Nilópolis, escola que ficou marcada por fazer enredos de exaltação ao regime militar nos anos 1970 e que homenageou o programa Fome Zero, do ex-presidente Lula, pela primeira vez em sua história prepara um desfile com uma temática que desafia os políticos. Com o título de “Monstro é aquele que não sabe amar – os filhos abandonados da pátria que os pariu”, a azul e branca pretende dar um grito de alerta contra a desigualdade social, os escândalos de corrupção e a intolerância religiosa.

Valendo-se do bicentenário do lançamento do romance “Frankenstein”, a escola vai fazer uma analogia entre o desprezo entre criador e criatura da ficção e o tratamento dado ao povo pelos políticos. “Vamos trazer as mazelas, o abandono que o povo está sofrendo e mostrar quem são os doutores Frankenstein de hoje, que desprezam o que lhe parece estranho, o que não entende e nega amor. É um apanhado da história do país, desde os tempos do Quinto dos Infernos até os escândalos atuais”, explica o carnavalesco Cid Carvalho, integrante da Comissão de Carnaval da Beija-Flor.

Bruna Prado/UOL
Beija-Flor quer dar grito de alerta contra a desigualdade social, os escândalos de corrupção e a intolerância religiosa Imagem: Bruna Prado/UOL

Segundo o artista, o grande motivador do enredo foi o imbróglio entre a Prefeitura do Rio e as escolas de samba, que tiveram suas verbas reduzidas pela metade. “Certamente, o que nos motivou é a crise atual do Carnaval. O corte de verbas, a ausência dos ensaios técnicos e todo esse quadro de perseguição. É preciso dar voz à nossa insatisfação com a falta de respeito à cultura do Carnaval. É o nosso momento de desabafo”, explica Cid, que relata que a ideia do enredo foi maturada com o Diretor de Carnaval da escola, Laíla, durante uma das passeatas organizadas contra a decisão do prefeito Marcelo Crivella. Depois, por sugestão do coreógrafo da comissão de frente, Marcelo Misailidis, a história de Frankenstein foi carnavalizada.

Ato político

Em seu terceiro Carnaval pela Estação Primeira de Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira resolveu comprar uma briga inédita para uma escola de samba. Tradicionalmente adesistas, até pela necessidade de verbas públicas, as agremiações nunca levaram para a avenida enredos que desafiassem frontalmente o poder municipal. Com “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, a verde e rosa resolveu protestar contra o tratamento dado ao Carnaval e às manifestações populares pelo prefeito Marcelo Crivella.

“Para mim, o Carnaval é político. Meus enredos, por defenderem a cultura popular, sempre tiveram um posicionamento. Desde o ano passado eu tinha vontade de fazer algo ainda mais politizado por causa da situação do país. Esse ano surgiu a oportunidade ideal. É a primeira vez que o prefeito é criticado abertamente na avenida. É um ato político no sentido de dizer que juntos, nós somos mais. Isso aqui não é brincadeira”, afirma Leandro Vieira.

No enredo da verde e rosa, não faltam críticas também para os dirigentes do Carnaval, que, segundo Leandro, engessaram demais a folia por conta do regulamento e da prioridade às necessidades financeiras. Com um forte tom panfletário, o desfile prevê a participação de integrantes de vários blocos de rua cariocas. Apesar disso, o carnavalesco faz questão de salientar que seu desfile não terá tom partidário: “Estamos fazendo política no sentido de defender a cultura popular da cidade, que vem sendo atacada em várias vertentes, seja nas escolas de samba, nos blocos de rua, no movimento LGBT e nas manifestações afro-brasileiras”, explica o artista.

 "É um ato político no sentido de dizer que juntos, nós somos mais. Isso aqui não é brincadeira" - Leandro Vieira, da Mangueira.

O caso da Mangueira ainda traz mais um ingrediente: a escola é presidida por um político, o deputado estadual Chiquinho da Mangueira (sem partido) – que, por sinal, foi o artífice da aliança entre os dirigentes do samba com o prefeito Crivella durante a campanha eleitoral. Apesar da possibilidade de tensão, o carnavalesco mangueirense enfatiza que tem liberdade total para desenvolver o tema: “Eu tenho uma ótima relação com o Chiquinho. Ele é político, eu sou artista. Meu posicionamento diante dos fatos é muito claro. Ele sabe o que eu penso e me dá liberdade total para fazer o que eu quero. Respeito e admiro muito isso nele, porque ele sabe entender que a Mangueira, o artista e a carreira política dele são coisas bem distintas”.

Grito contra a escravidão

Se as escolhas da Beija-Flor e Mangueira foram feitas após a crise com o prefeito, o Paraíso do Tuiuti pode se vangloriar de ter dado início à onda engajada do Carnaval 2018. Afinal, definiu seu enredo em maio, um mês antes do corte de verbas. Questionando as relações trabalhistas após os 130 anos da Abolição da Escravatura, o Tuiuti traz o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.

O título, inspirado no refrão do antológico samba-enredo “Sublime Pergaminho”, da Unidos de Lucas (Carnaval 1968) traz a constatação de que o trabalho escravo ainda resiste, mas com uma nova roupagem. “A escola me pediu um enredo afro e eu procurei um motivo forte para fazer um enredo diferente do que vinha sendo feito. De imediato lembrei dos 130 anos da Lei Áurea. Desse estalo eu me recordei do ‘Sublime Pergaminho’, que está completando 50 anos. Andando nas ruas, vi um monte de bolivianos e peruanos vendendo bugigangas. Comecei a me lembrar da diáspora africana, das pessoas saindo de seu lugar e se sujeitando a esse tipo de trabalho. Me lembrei das fábricas de roupas com trabalho escravo, da situação no campo, dos indígenas. Aí veio a inspiração de mostrar que a escravidão existe até hoje, mas só mudou de cara”, explica Jack.

Em seu desfile, o Tuiuti vai apresentar um histórico da escravidão ao longo dos tempos e das civilizações e mostrar que, apesar da Lei Áurea, ainda estamos distantes de viver em uma sociedade sem trabalho escravo. No último setor, Jack Vasconcelos faz pesadas críticas às reformas trabalhistas empreendidas pelo governo Temer. O carnavalesco espera conscientizar corações e mentes dos foliões. “Minha arte tem o objetivo de tirar as pessoas de sua zona de conforto. Acredito no poder de conscientização de um desfile de escola de samba, que pode colocar uma pulga atrás da orelha de uma pessoa e fazê-la questionar alguma coisa que esteja passando na vida”.

Bruna Prado/UOL
A Tuiuti, da rainha de bateria Carol Marins, fará histórico da escravidão Imagem: Bruna Prado/UOL

Uma nova tendência?

Ao contrário do Carnaval de rua, sempre anárquico, o desfile das escolas de samba sempre teve um caráter adesista. Desde o desfile de 1935, que foi o primeiro oficializado pela prefeitura do então Distrito Federal, as agremiações, na maioria das vezes, adotavam enredos de exaltação a personagens da história do Brasil e feitos dos governos. Durante a ditadura militar, uma das poucas exceções foi o Império Serrano, que, em 1969, desafiou o governo com o enredo “Heróis da Liberdade”.

Com a abertura política dos anos 1980, surgiu uma fase importante de enredos politizados, sobretudo na Caprichosos de Pilares, do carnavalesco Luiz Fernando Reis, e na São Clemente. A partir da década de 1990, com a estabilização da democracia e o incremento do patrocínio no Carnaval, os temas politizados viveram duas décadas de ocaso.

Questionados se o Carnaval de 2018 marca uma nova tendência de enredos, os carnavalescos divergem. Leandro Vieira não acredita que a política voltará a dominar os desfiles das escolas. “Acho que o momento do país acabou propiciando que alguns artistas do Carnaval levantassem essa possibilidade de politizar os enredos. Não vejo como uma tendência porque o Carnaval historicamente é governista”, afirma.

Jack Vasconcelos discorda: “Toda manifestação artística é retrato de sua época. É natural que as escolas reverberem esses temas. Todo mundo está falando de política, até quem não acompanha em seu cotidiano, porque é impossível fugir do assunto. Pode ser que no próximo Carnaval tenhamos mais escolas falando desse universo”. Já Cid Carvalho prefere encarar a situação com otimismo. “O ataque às escolas foi muito direto e estamos reagindo. Eu prefiro que nos próximos anos não tenhamos tantas dificuldades e que não precisemos mais gritar. Só queremos ser mais respeitados”, salienta o artista da Beija-Flor. 

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