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Rio de Janeiro

Vítima de preconceito, passista com nanismo será destaque da Viradouro

Berg Silva/Divulgação
Viviane de Assis é passista da Viradouro Imagem: Berg Silva/Divulgação

Carolina Farias

Colaboração para o UOL

03/01/2018 15h57

Já são 20 anos de Carnaval na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, para Viviane de Assis. Seu 1,25 m de altura não a impede de se destacar em escolas de samba e blocos onde desfila. Aos 38 anos, a passista entrará na avenida pela décima vez na Viradouro, escola de Niterói que desfila no sábado (10/2), terceira agremiação a se apresentar na segunda noite da Série A.

“Sou negra, mulher, tenho nanismo, sou mãe solteira, mas ando sempre com um sorriso no rosto. Mato um leão por dia”, disse a passista, que neste ano sai como destaque de chão com uma fantasia que leva o nome “O sonho de voar", no enredo "Vira a cabeça, pira o coração: loucos gênios da criação”, que vai apresentar na avenida um paralelo entre genialidade e loucura.

“Minha fantasia é linda, maravilhosa, toda decotada. Vou sair com um salto enorme e um costeiro maravilhoso. Mas vai ser leve, porque uma pessoa pequena não pode levar uma fantasia pesada”, brincou a passista.

Mas as fantasias nem sempre foram uma questão tranquila para Viviane. Até três Carnavais atrás, as alegorias que recebia precisavam de ajustes por conta de seu tamanho. Ela mesma, em casa, fazia o conserto necessário.

“Sempre vinha maior, mas eu dava meu truque. Mas há três anos, quando fui para ala de passistas, não precisei fazer mais ajustes, tiveram cuidado. Esse ano a fantasia veio direitinho”, explicou.

Berg Silva/Divulgação
Fantasia de Viviane se chama “O sonho de voar" Imagem: Berg Silva/Divulgação

A pequena passista entrou no mundo do samba ainda criança por conta da família, que sempre esteve envolvida no mundo do Carnaval carioca.

“Sempre gostei de desfilar. Já desfilei na Acadêmicos de Santa Cruz, Porto da Pedra, Mocidade, São Clemente e Viradouro. Hoje também sou rainha de bateria há sete anos do bloco ‘Senta que te empurro’, que é composto por cadeirantes, sai do Catete (zona sul do Rio)”, contou.

Viviane fala com bom humor sobre o nanismo. É a única da família a ter essa condição. Seus pais, irmãos e seu filho de 16 anos, Paulo Rodrigo, têm altura normal. O adolescente segue os passos da mãe.

“Ele tem samba no pé. É um ótimo passista e desfila na Estácio de Sá”, disse a mãe orgulhosa.

Preconceito

Mas, apesar de encarar com naturalidade sua estatura, Viviane se viu abalada com uma manifestação explícita de preconceito que sofreu no mês passado. Ao entrar em uma loja de roupas no bairro da Tijuca, zona norte da cidade, a passista teve o atendimento recusado por uma vendedora, que ainda a insultou.

“Quando ela me viu, cruzou os braços. Perguntei o preço de uma blusa, toda brilhante, quando ela disse ‘tira esse troço daqui', com voz de deboche. Virou para uma pessoa que parecia ser a chefe ‘isso ainda está aqui?' falando de mim. Coloquei na rede social (uma transmissão ao vivo) porque senão não iam acreditar em mim”, explicou Viviane.

Situações em que foi vítima de preconceito na vida de Viviane não são raras, mas ela afirma que nunca foi de uma maneira tão agressiva.

“O máximo que acontecia era apontarem para mim, olharem de maneira diferente. No mundo do samba também já me olharam achando que eu queria ser mais que as outras. Mas dessa vez foi constrangedor, doeu no coração. Imagina alguém te olhar e chamar você de ‘isso’?”, desabafou a passista, que prestou queixa contra a vendedora e vai processá-la na Justiça.

Vida que imita a arte

Segundo Viviane, a vendedora que a ofendeu usou a mesma frase da personagem Sophia, vivida por Marieta Severo na novela “O Outro Lado do Paraíso”, da Globo, para a filha Estela, interpretada pela atriz Juliana Caldas, que também tem nanismo.

“Ela (Sophia) fala da filha ‘tira isso daqui”, disse Viviane.

Para ela, a novela ter uma personagem anã é uma conquista para as pessoas que têm nanismo.

“Fico feliz pela oportunidade de ter uma pessoa com nanismo que não está sendo tratada com comédia, fazendo palhaçada para o povo rir. A Juliana Caldas está interpretando maravilhosamente bem”, elogiou Viviane, que faz apenas uma crítica à trama: ela gostaria que a trama tivesse situações mais reais.

“Nem todo mundo é tratado assim. Queríamos uma personagem como todo mundo, que trabalha, sai na rua, tem dificuldade de andar pelas calçadas, usar o banco 24 horas, que não tem como subir no ônibus. O pessoal com nanismo está se manifestando nas redes sociais”, questionou a passista, que leva essa vida atribulada que gostaria de ver na personagem.

Berg Silva/Divulgação
Viviane de Assis foi vítima de preconceito em shopping no Rio de Janeiro Imagem: Berg Silva/Divulgação

Além de ser bancária, Viviane dá aula de dança para crianças carentes e cuida da casa. Ela também faz parte da Anaerj (Associação de Nanismo do Estado do Rio de Janeiro), que atua principalmente na questão do preconceito contra pessoas nessas condições.

“Na Anaerj tem pessoas com nanismo e pais de crianças com nanismo. Nosso foco também são as crianças porque tem muitas que não saem de casa por conta disso. Não era para ter mais preconceito hoje. Minha família sempre me tratou como normal, para viver uma vida independente e trabalhar. Nunca fui tratada como coitadinha. Trabalho com meu psicológico e com o do meu filho, que vê as pessoas olharem, apontarem, fazerem piadinhas”, afirmou Viviane, que também é atriz. Ela participou do longa-metragem “Duas de Mim”, que entrou em cartaz ano passado, e estará em “O Candidato Honesto 2”, que será lançado em 2018.

“Só não pode me chamar para fazer palhaçada. Não gosto de ver quem tem nanismo sendo estigmatizado. Nem me chama, não há dinheiro que pague isso. Se for para me chamar para trabalhar, que me chame para arrasar”, brincou.

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