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Única mulher intérprete no Carnaval de SP, Grazzi Brasil aprendeu "na raça"

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Grazzi Brasil é intérprete da Vai-Vai e comandará samba-enredo em 2018 Imagem: Instagram/Reprodução

Soraia Gama

Colaboração para o UOL, em São Paulo

11/01/2018 04h00

Grazzi Brasil não era do Carnaval, apesar de toda a sua família ser Vai-Vai. Agora, a moça está a poucos dias de soltar a voz como a única intérprete mulher da festa paulistana, justamente na tradicional escola do Bixiga. Ao lado dela estará Gilsinho, cantor oficial da Portela. Juntos, os dois mais o time de canto da Escola do Povo, apresentam o samba-enredo que homenageia Gilberto Gil na noite de sábado (10/2).

“Tenho pouco tempo de Carnaval, mas tenho muita garra, muita confiança e muito respeito”, diz a cantora, que garante não estar de brincadeira. “Eu sei o tamanho da minha responsabilidade. Nunca puxei um samba na Avenida, mas darei o meu melhor. Tenho um time maravilhoso de canto. E o apoio é enorme", afirma.

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Cantora participou do reality show "The Voice" Imagem: Instagram/Reprodução

Mas não pense você que Grazzi não ouviu ou leu comentários maldosos pelo fato de ser mulher. “No começo era complicado. Não é mole ser mulher, não! É um mundo muito masculino e machista, eu sei. Mas sempre cantei no meio de homens. E tenho uma diretoria toda e a comunidade me apoiando”, diz ela, que nessa fase da vida procura não dar atenção para comentários maldosos. “Tem os que torcem por mim e os que torcem o nariz. Mas não estou nem aí”, diz segura do que faz e acreditando que ocupar esse posto tão importante possa abrir espaço para outras cantoras nos próximos Carnavais. “Tenho 30 anos, nunca imaginei estar aqui. Tive sorte, ganhei esse presente. Sei que meu Pai maior e meus Orixás estão ao meu lado".

A história toda começou há quatro anos, quando Grazzi foi apadrinhada por Jorge Soares, cantor da ala musical da Dragões da Real. Participou de corais nas gravações de sambas-enredos e defendeu alguns sambas em eliminatórias do Carnaval de São Paulo.

Pé quente, na Vai-Vai defendeu os sambas vencedores em 2015 (Elis Regina) e 2016 (França), quando também gravou o início alusivo no CD oficial (a parte mais melódica do samba-enredo). Mas foi em 2017 que a coisa toda cresceu. Grazzi gravou a versão do samba-enredo que homenageava Mãe Menininha do Gantois, no Vale dos Orixás, no ABC paulista, e fez sua estreia no Anhembi, participando da ala musical da escola, então comandada por Wander Pires.

 

Bom-dia Vamos de Gonzaguinha #tbt Pra quem é tudo e com fé Nadadeira pra quem não é...

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Neste ano o comando do carro de som da Vai-Vai é dela, que ainda reforça a ala musical do Paraíso do Tuiuti, no Rio. Tudo isso sem parar de cantar na noite paulistana. Aliás, 2016 e 2017 foram anos bem produtivos. Ficou em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e viajou pelo Nordeste com o premiado musical “Cartola – O Mundo É um Moinho” e ainda participou do “The Voice Brasil”, na Globo, onde os quatro jurados viraram a cadeira para recebê-la no programa. “Conheci muita gente boa, foi uma experiência muito bacana. Mas depois do 'The Voice' ficou ainda mais claro para mim que quero cantar nossa música. Não tenho nada contra quem canta em inglês. Posso até um dia cantar, mas quero mesmo é a nossa música.”

Apesar de muito trabalho, Grazzi sabe que, faltando uns 15 dias para o Carnaval, ela não poderá abrir a agenda para shows. Será preciso poupar a voz e continuar com as aulas de fono. "Não tenho muito segredo, não. Só dormir bem e beber muita água. Não posso parar por muito tempo. Tenho de dividir meu tempo entre meus filhos, a Vai-Vai e a Tuiuti. Mas estou muito, muito feliz!”.

Família muito pobre e pouco tempo para mostrar seu dom
O que a menina sonhadora mais ouvia da mãe era: “Ahhh... quer ser cantora?”. “Era o mesmo que perguntar se eu estava maluca. Mas entendo a minha mãe. Éramos muito pobres e morávamos no quintal da minha avó, na favela do 1010 (no Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo). Ela sempre trabalhou muito, então não tinha tempo de prestar atenção em mim, no meu dom. A tia da creche onde eu ficava e ela trabalhava vivia perguntando se ela já tinha me ouvido cantar. Dizia que eu cantava bonito”, lembra-se Grazzi, que começou sua carreira há 17 anos.

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Grazi Brasil e Gilsinho na Vai-Vai Imagem: Instagram/Reprodução

"Aprendi tudo na raça. Quando tinha 13 anos, fui convidada para cantar na Black Zuca, uma banda da Comunidade São Remo (ao lado da USP). Era tímida, uma menina! A música e o samba me deram a estrutura que tenho hoje”, conta ela, que comemora a compra do seu primeiro carro no Natal de 2017. “Achei que era merecedora. Afinal, são mais de 15 anos ralando muito".

De família grande, com oito irmãos (cinco do lado da mãe e três do pai), Grazzi diz que está vendo o sonho da música se realizar. O próximo da lista é dar aos dois filhos, Giovana, de 14 anos, e Akim, de 4, as oportunidades que não teve. “Minha mãe é um exemplo de guerreira até hoje! Ela deu para os filhos o que podia, dentro do limite, que era muito apertado. Quero ser inspiração e motivo de orgulho para os meus filhos também, mas junto com as coisas materiais. É certo que não levamos nada dessa vida, mas enquanto estamos vivos precisamos dessas coisas.”

Mulheres no comando do som
É comum as escolas do Rio e São Paulo terem voz feminina na ala musical, mas desde 2003, quando Eliana de Lima tentou uma volta na Unidos do Peruche, nenhuma mulher é intérprete oficial. Será que Grazzi Brasil vai abrir uma nova temporada de puxadoras de samba?

Eliana de Lima é a mais famosas entre as intérpretes femininas de São Paulo. Cantou na Leandro de Itaquera e Unidos do Peruche. A última participação no Anhembi foi 2003. Bernadete foi a voz da Império Lapeano (escola do terceiro grupo) e cantou na Unidos do Peruche, em 1991. Ela assumiu a escola no lugar de Eliana de Lima, que deixou o posto para ter bebê. Até hoje faz parte da ala musical da agremiação da zona norte.

Vânia Cordeiro também ficou no comando do carro de som da Unidos de São Lucas, escola da zona leste que defendeu por mais de duas décadas. Em 2017 foi novamente a voz oficial da escola no desfile da UESP.
No Rio de Janeiro, Tia Surica, hoje um dos símbolos da Velha-Guarda da Portela, foi a primeira a puxar um samba-enredo, em 1966. Na ocasião, “Memórias de um Sargento de Milícias” deu o campeonato à escola de Madureira.

Três anos depois foi a vez de Elza Soares no Salgueiro, também campeã com o enredo “Baía de Todos os Deuses”.

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