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Carnavalesco da Mangueira: "As escolas de samba se divorciaram do povo"

Glaucon Fernandes/Eleven
O carnavalesco Leandro Vieira, campeão em seu primeiro ano no comando do barracão da Mangueira Imagem: Glaucon Fernandes/Eleven

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

12/01/2018 04h00

Poucos profissionais na história do Carnaval ascenderam tão rapidamente como Leandro Vieira. Depois de atuar por quase 10 anos nos bastidores, como assistente e desenhista de vários carnavalescos, em 2015 assinou seu primeiro desfile na Caprichosos de Pilares, no Grupo de Acesso, quando ficou em quinto lugar. No ano seguinte, um salto inimaginável: a contratação pela Estação Primeira de Mangueira. Em sua estreia, em 2016, foi campeão. No ano passado, ficou em quarto lugar em um desfile elogiado, porém prejudicado por erros de evolução.

Para 2018, Leandro atrai grande parte da expectativa do público. Afinal, seu enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, é uma crítica aberta à postura do prefeito Marcelo Crivella em relação ao Carnaval. Nesta entrevista exclusiva, Leandro reflete sobre o momento do Carnaval carioca e da necessidade da reinvenção do desfile. “Estamos à beira de uma revolução, porque este modelo atual não tem mais condições de sobrevivência”, afirma o artista, que acredita que o caminho de retomada do Carnaval das escolas está na volta dos desfiles para os braços do povo.

Glaucon Fernandes/Eleven
Leandro Vieira ao receber seu primeiro título do Carnaval Imagem: Glaucon Fernandes/Eleven

Você conseguiu uma proeza: superando a desconfiança de muitos, foi campeão em seu primeiro desfile no Grupo Especial, em 2016. No ano passado, você se afirmou como uma realidade no Carnaval. O que esperar do Leandro Vieira em 2018?

Não acho que tenha me afirmado. Eu sou o mesmo Leandro de 2015. Continuo pensando Carnaval do mesmo jeito. Nesses anos todos, eu tenho tentado afirmar a maneira que enxergo a produção da festa, da atividade de fazer Carnaval para escola de samba. A pauta da importância do dinheiro para o Carnaval sempre foi importante para minha forma de fazer Carnaval. Continuo sendo o mesmo, buscando caminhos.

Para o público, você é o carnavalesco do momento, é o cara...

O cara é o Renato Lage e "a cara" é a Rosa Magalhães. Eu sou só o carinha. Em 2015, no meu primeiro desfile na Caprichosos, já criticava o mercado do Carnaval. Toda vez que posso falar de Carnaval, adoto uma postura crítica sobre isso. Acredito que a revolução deve ser feita de dentro e sou um carnavalesco que nunca conseguiu entender o Carnaval como um espaço para mero entretenimento. O que deixou o Carnaval caro foi a transformação do desfile em um espetáculo que a execução não está baseada nos fundamentos culturais. Eu fico feliz que tenha feito desfiles na contramão disso e mais feliz ainda em saber que o público aceita isso bem. Estou tentando reafirmar valores do Carnaval que andam meio perdidos.

Que valores?

O enredo é um valor perdido. Para mim ele é o discurso anual da escola de samba. É o que serve para afirmar e reafirmar valores. Meu enredo de 2018 afirma valores da cultura carioca em um cenário de repulsa a esses valores tradicionais. O enredo é o principal e, talvez, dos quesitos, o que mais se esvaziou de sentido.

Você acha que, por ser uma escola popular em sua essência, só a Mangueira poderia fazer um enredo que bate de frente tão fortemente com o poder público?

Acho que esse enredo, de alguma forma, é de todas as escolas e de todos os cariocas. O enredo da Mangueira abraçou muito o mundo do samba e uma sociedade que ainda fica indignada com alguns comportamentos. É o abraço na cidade tendo como viés o Carnaval. O Carnaval é uma das mais sofisticadas manifestações que a cultura brasileira criou. Por mais que as escolas de samba tenham se distanciado, as pessoas ainda as enxergam como algo representativo de nossas tradições.

Facebook/Reprodução
Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira, e Alcione Imagem: Facebook/Reprodução

Você defende o discurso de que as escolas se divorciaram da cidade.

O pior é que elas quiseram se divorciar.

Seu enredo é uma tentativa de flerte?

Sim, é uma piscada (risos). Meu enredo nada tem a ver com o corte de verbas. Ele nasce a partir da discussão, que acho positiva, gerada com a medida. O problema com a Prefeitura deixou evidenciado o divórcio da cidade com o desfile das escolas. Para muitos, falta o entendimento de que o desfile de escola de samba é cultura. Não é porque a sociedade não quer enxergar, mas o lado de cá inverteu a lógica do desfile, que deixou de ser uma manifestação cultural e virou comércio. E, aí, surgiu um novo amor: o Carnaval de rua, que só cresce. Há muito tempo existiam histórias fantásticas do encantamento das pessoas pelo Carnaval através das escolas de samba. Hoje, esse papel é dos blocos. O desfile ficou careta por causa da lógica da técnica, da competição, do regulamento que padroniza. Desfilar se tornou algo muito mais contemplativo do que participativo e isso reduziu o desfile ao produto. A nossa discussão pega esse contexto e quer pensar para onde vai o Carnaval. Não seria hora da gente se permitir algumas liberdades? Porque, na verdade, os blocos hoje são o que as escolas foram um dia.

Por isso você convidou os blocos para desfilarem na Mangueira?

Sem dúvidas! Meu Carnaval é todo embasado no brincar na rua. O desenvolvimento recorre à história oficial do Carnaval para demonstrar que brincar está mais ligado ao lúdico do que ao financeiro. Banho de mar à fantasia, entrudo, Zé Pereira, a criação das escolas de samba, isso tudo aponta para a reconstrução de laços e atividades lúdicas. A maioria das grandes escolas nasceu como bloco. O desfile foi gratuito por muitos anos, na Praça Onze e na Avenida Presidente Vargas. E 700 mil pessoas assistiam!

Ainda dá para retomar esse casamento?

Eu acho que vai acontecer. A gente está no auge da briga. Por isso que lamento o cancelamento dos ensaios técnicos, porque eles provavam que existia o divórcio, mas ainda existia uma paixão enrustida. Você via a cidade se movimentar para ir aos ensaios técnicos e lotar a avenida. Os ensaios demonstravam que existia interesse do povo em se reaproximar das escolas.

O que teria que acontecer para o casamento voltar?

Acho que o desfile das escolas de samba está à beira de uma revolução. Porque o modelo não vai se sustentar por mais tempo. A discussão do dinheiro público estará na pauta nos próximos anos. Muitas vezes as pessoas acham que eu defendo o corte de verbas, mas eu acho o seguinte: o estado tem que investir nas escolas de samba porque elas são cultura. Mas as escolas têm que dar a contrapartida do negócio. Não pode ser uma única via. E a gente tem que entender melhor quais são essas contrapartidas. Eu sou contra a visão do Crivella de mudar a gestão do Carnaval para a iniciativa privada porque a lógica dela é a do mercado. E se você isenta o poder público da responsabilidade pela cultura, você deixa essa cultura à mercê dos interesses do mercado e das crises econômicas. Isso é criminoso. Não sei se o bumba meu boi do Maranhão tem a capacidade de atrair o interesse da iniciativa privada. E se o mercado achar que ele não vale a pena, ele deve deixar de existir?

Facebook/Reprodução
Leandro Vieira crê que regulamento deixou desfiles monótonos Imagem: Facebook/Reprodução

Qual o caminho entre o financiamento público e a lógica do mercado?

Acho que os desfiles têm de ser repensados. Se o Estado, num momento de crise financeira, não pode investir, a falta de dinheiro determina que não pode existir aquela atividade? O lance é repensar o modelo. A Mangueira, nos últimos três anos, tem feito Carnaval com a verba que ela recebe da Prefeitura e da Liga. Meu Carnaval é um milhão mais barato do que o ano passado. É a matemática. Faço Carnaval tentando atender as expectativas do regulamento. Mas talvez eu não consiga atender ao padrão de tantas alegorias e fantasias. E isso tem que ser repensado: o tamanho das escolas. Não é o tamanho que determina a qualidade de nada. Eu já assisti a show da Gal Costa com uma orquestra e outro com voz e violão e não sei qual foi o melhor. Não é o número de alegorias que vai determinar qual escola é melhor. Isso depende da criação de cada carnavalesco e até da tentativa de dinamizar o entendimento do público. Dá para fazer um desfile maravilhoso com poucas alegorias. Se eu fosse fazer um enredo sobre as quatro estações do ano, eu só precisaria de quatro alegorias – outono, inverno, primavera e verão. Sou a favor de um regulamento com um mínimo e sem limite para o máximo de alegorias. Se você quiser fazer um Carnaval com 15 carros e conseguir, parabéns. Quem tiver uma ideia originalíssima de desfilar com dois e for sensacional, que faça. Hoje, só posso mostrar cinco alas, um carro, outras cinco alas, outro carro. Quem vem depois de mim, a mesma coisa. O regulamento faz o desfile ficar monótono.

Qual o papel do Carnaval pode desempenhar na vida de uma cidade que vive um momento tão ruim, em relação à política, ao debate...

Acho que a escola de samba tem um papel importantíssimo na questão da manutenção da identidade cultural própria da cidade. Elas ainda representam uma possibilidade de diálogo com comunidades que o poder público vira as costas. A escola como espaço de encontro, convívio, de entendimento do que é a sociedade como um todo, como contato entre as camadas mais pobres e a classe média em um mundo mais polarizado, as escolas de samba podem ser um papel de agregação importante – por meio da alegria. É isso que me alimenta a fazer Carnaval. No meio da massa, não dá pra saber quem é rico, quem é pobre, quem é gay. Ouço muita gente falando que o país está se acabando e o povo quer Carnaval. Mas o Carnaval tem um poder de mobilização de diferentes que é muito difícil encontrar em outra situação. Mobilizar iguais é muito fácil. Nesse mundo polarizado, louco, que bota rótulo em tudo, qualquer manifestação que tem capacidade de irmanar tem muito a ensinar.

As escolas estão pecando em seu papel de serem órgãos de convívio entre membros de suas comunidades?

O que fomenta a escola de samba é sua comunidade. Quando o fim se torna mais importante que o meio, há ruído na comunicação. Por isso as escolas perderam o espaço de diálogo com a sociedade. Hoje, o mais importante é o dia do desfile e a maioria das pessoas da comunidade não estará lá. Quem vai pra avenida são outras pessoas. A Liga ainda baliza a qualidade e interesse do desfile na venda do ingresso. Mas o ingresso é vendido para quem? As pessoas criticam muito a transmissão da TV. Eu tenho a tendência a enxergar a televisão como o mais importante sinal do interesse do desfile. Se o negócio fosse muito bom, a televisão iria querer transmitir o dia inteiro. A TV trabalha com a lógica do mercado. Se dá audiência, ela passa o desfile inteiro. Se não, passa o Big Brother. Não é que a Globo prefere o Big Brother. Não. As pessoas preferem assistir ao Big Brother. E cabe a nós mudar essa realidade. Temos que olhar os sintomas. É uma consequência e não uma causa. Temos que reinventar, refazer o espetáculo para que ele seja mais interessante do que o Big Brother, do que a novela, do que o Fantástico. Se for, a Globo muda a grade todinha.

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