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Blocos de rua

Blocos de mulheres reforçam empoderamento feminino no Carnaval do Rio

Bruno Girão/Divulgação
O bloco Mulheres de Chico Imagem: Bruno Girão/Divulgação

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

15/01/2018 04h00

O protagonismo feminino toma cada vez mais espaços onde antes os homens ditavam as regras. Não podia ser diferente no Carnaval e três blocos do Rio de Janeiro provam que lugar de mulher também é no comando da folia.

Um dos principais blocos de mulheres do Carnaval carioca, o "Mulheres Rodadas" surgiu em 2014 de maneira despretensiosa. Um grupo de mulheres organizou um protesto contra uma postagem machista na internet onde um homem aparecia segurando um cartaz com a frase “Não mereço mulher rodada”. O evento criado no Facebook teve mais de mil confirmações e no dia do protesto, em formato de cortejo carnavalesco, cerca de 3.000 pessoas participaram, a maioria mulheres com cartazes e temas que remontavam ao feminismo.

PH de Noronha/Divulgação
Foliã se diverte durante o bloco Mulheres Rodadas Imagem: PH de Noronha/Divulgação

“Somos o primeiro bloco feminista. Como bloco saímos a primeira vez 2015. Em 2016, começamos com nossa oficina de instrumentos para mulheres que nunca viram o instrumento. Foi assim que entrei. Não sabia nem o nome do instrumento e hoje sou monitora”, conta a psicóloga Raquel Fialho, 37, integrante do bloco.

O Mulheres Rodadas atualmente tem 150 ritmistas. Quase todos são mulheres, já que os homens não são excluídos da banda, mas Raquel explica que a eles é colocado que o foco são as instrumentistas mulheres.

“Nossa visão é de que não dá para fazer um movimento que não integre e não atinja os homens, que são 50% da população. Não é o lugar de fala deles, o privilégio não é deles. É para aprenderem o que é o feminismo, quais as consequências do machismo, que não é bom para ninguém. Não é que sofrimento é igual, nós somos as vítimas, mas eles sofrem também”, afirma Raquel.

Pela sua experiência no bloco, a psicóloga diz acreditar que o comportamento das pessoas está mudando, de acordo com o que o cortejo propõe.

“Alcança nossa meta que é minimamente causar estranhamento, faz com que minimamente parem para pensar o que é isso de as pessoas chamam de feminismo. De se a mulher disser não é porque é não. De estar aqui com muita ou pouca roupa e que ele não pode usufruir disso. No cortejo as mulheres se sentem muito à vontade de se fantasiar do jeito que querem, brincar como querem. Nunca tivemos confusão”, disse a integrante do bloco, que sai às 10h da quarta-feira de Cinzas do Largo do Machado, em Laranjeiras, e vai até o mergulhão do aterro do Flamengo.

Gustavo Dias/Divulgação
O Mulheres Rodadas atualmente tem 150 ritmistas Imagem: Gustavo Dias/Divulgação

Músicas obrigatórias

Todos os anos pelo menos duas músicas não podem faltar no Mulheres: "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque, e "A Luz de Tieta", de Caetano Veloso.

"Na 'Geni' tocamos uma versão só instrumental, mas carregada, pesada. Fizemos arranjos que parecem batidas do coração que vão aumentando e na hora do ‘joga pedra’ parece que é uma porrada. Tem uma carga dramática dessa mulher. Já a ‘Tieta’ veio da época dos protestos contra o Eduardo Cunha em que mudamos o refrão para ‘Cunha quer controlar a nossa buceta’”, explica Raquel.

Mas não só de sucessos antigos o bloco faz seu cortejo-protesto. Tem músicas da moda com ou sem ajustes em suas letras. Neste aqui o bloco vai levar para a folia o hit “Todo dia”, de Pablo Vittar.

“Por causa da letra que diz ‘eu não espero o Carnaval chegar para ser vadia, sou todo dia’”, afirmou a psicóloga.

Mais experiente em colocar as mulheres no papel principal é o bloco Mulheres de Chico, com 12 anos de existência. O nome veio da paixão de um grupo de amigas por Chico Buarque.

“Somos o primeiro bloco totalmente feminino do Brasil. Somos 20 mulheres, praticamente a mesma formação do primeiro ano de bloco. São só mulheres porque começou com um grupo de amigas curtindo o Carnaval. Tem tudo a ver serem só mulheres por conta da ligação com o sentimento feminino do Chico em suas letras”, contou a produtora e integrante do bloco Vivian Freitas, 42.

O bloco, que “sai parado” no sábado depois do Carnaval, em um palco na praia do Leme, na zona sul, chega a reunir um público de cem mil pessoas e já quebrou paradigmas logo nos seus primeiros anos.

“Quando começamos ainda havia escolas de samba que não deixavam mulheres a tocarem na bateria. Fomos o primeiro bloco de mulheres a tocar na feijoada da Mangueira. Por coincidência ou não, no ano seguinte (2009) a Mangueira aceitou mulheres na bateria. Claro que somos feministas”, explica Vivian.

Bruno Girão/Divulgação
Integrantes do bloco Mulheres de Chico Imagem: Bruno Girão/Divulgação

Esse ano o tema escolhido para ser cantado e abordado no bloco é “Carnaval Paratodos”, lembrando da música de Chico “Paratodos” e vai falar de inclusão.

“Vamos levar a inclusão e a diversidade, sem excluir ninguém. Todos juntos no mesmo bloco. A Jane di Castro, vai participar cantando marchinhas”, disse a produtora sobre a participação da cantora que está no documentário “Divinas Divas”.

Mulheres da Vila

A zona norte também tem seu bloco só com ritmistas mulheres e tem até uma corda para separar os homens das foliãs. O Mulheres da Vila, da Vila Isabel, existe desde 2010 e desfila nas terças de Carnaval às 17h na rua 28 de Setembro, principal via do bairro.

A ideia de colocar só mulheres para tocar e saírem em cordão surgiu de uma conversa de amigas em uma festa e hoje reúne cerca de 50 ritmistas, todas que já participam de baterias de escolas de samba, como afirma a fundadora, a costureira Fátima Mendes, de 63 anos.

“Só temos dois homens no bloco. O muso e o Rei da Bateria, que todos os anos é eleito. Nossa porta-bandeira tem 79 anos. Não discriminamos idade”, explicou a fundadora.

Neste ano o tema escolhido para o samba, que será escolhido no dia 21, terá o tema “Empoderamento da mulher na política”

“O tema é sempre um assunto comentado nas redes, como a mulher ganhar menos em mesmos cargos ocupados por homens. O enredo foi bem aceito”, contou Fátima, mesmo negando que o bloco seja feminista.

“Antes tinha muita mulher que não ia em bloco sem os namorados ou maridos porque eles não deixavam. Quando criamos o bloco eles aplaudiram. Botamos uma corda simbólica e os próprios homens se prontificam a segurá-la. As mulheres se soltam, é só alegria. Cerca de 90% das nossas foliãs é de mulheres acima dos 50. A Vila não é um bairro jovem. Elas adoram”, disse a fundadora.

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