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Recife e Olinda

Como o quarentão Galo da Madrugada foi de bloco familiar a "maior do mundo"

Carlos Ezequiel Vannoni/Elevn
O Galo gigante, símbolo do Galo da Madrugada, instalado na ponte Duarte Coelho, no centro do Recife Imagem: Carlos Ezequiel Vannoni/Elevn

Roberto Oliveira

Colaboração para o UOL, em Recife

23/01/2018 13h09

Que o Galo da Madrugada é considerado o “maior bloco da Terra” pelo Livro dos Recordes, o Guinness Book, desde 1995, todo mundo sabe. Que costuma seduzir cerca de 2 milhões de foliões no centro do Recife, numa conta que até arquitetos, engenheiros e os Deuses duvidam, também não é novidade. Mas o que pouca gente sabe é como e, principalmente, por que uma troça familiar, que começou numa casa modesta numa rua sem saída, passou a arrastar uma multidão incontável e transformou-se num ícone mundial do Carnaval.

A fanfarra surgiu no dia 23 de janeiro de 1978, fundação do Galo da Madrugada, há exatos 40 anos. O estalo aconteceu no aniversário de um dos filhos de Enéas Freire, fundador e presidente emérito do Galo, conta Rômulo Meneses, também membro fundador. Pouco mais de dez dias depois, o bloco saía pela primeira vez. Era o início do fim da ditadura, e o Carnaval de rua do Recife dava sinais de desaparecimento.

Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação
Há 40 anos, no dia 23 de fevereiro de 1978, nascia o Galo da Madrugada Imagem: Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação

“A gente fez um bloco para brincar, para resgatar o Carnaval de rua, dos concursos de Frevo, de fantasia. O Carnaval era animado pelas agremiações, troças, clubes e blocos que desfilavam pelas ruas, assim se brincava o Carnaval de rua na década de 50, 60. Então veio a ideia de resgatar essa tradição do Frevo na rua, que estava desaparecendo”, lembra Rômulo, atual presidente do Galo, que casou-se com Ana Nery, tornando-se genro de Enéas Freire.

Seu Neinha, como era chamado pelos mais próximos, não morava mais no bairro de São José, onde havia nascido e se criado. Mas tinha irmãos na rua Padre Floriano, viela onde morava a mãe de Rômulo. Foi lá, no número 43, casario desses antigos, comprido e sem janelas laterais, pé direito alto, apenas uma porta e duas janelas frontais, tons de verde e amarelo claros, que o Galo da Madrugada teve seu primeiro poleiro. Depois, na mesma rua Padre Floriano e posteriormente na tradicional rua da Concórdia, o bloco teria sedes exclusivas.

A decisão de resgatar o abafo estridente dos trombones e trompetes do Frevo de rua estava tomada, mas por que na madrugada?

“Neinha teve a ideia de fazer o bloco para gente brincar no centro, no Recife Antigo, no comércio. Naquela época não tinha shopping [o Shopping Center Recife foi fundado dois anos depois, em 1980], todo o comércio se concentrava no centro. Então veio a ideia de sairmos antes do comércio abrir, daí o nome de Galo da Madrugada. Íamos pra rua acordar o povo pra brincar o Carnaval. De fato, nos 3 primeiros anos, saímos às 5h da manhã. Depois ficou difícil por causa do tamanho, eram 75 pessoas no primeiro bloco, mas foi crescendo a cada ano, retardando a saída, logo saímos de 75 pessoas pra 10, 20 mil”, conta o presidente, hoje com 68 anos.

Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação
Galo da Madrugada reúne mais de 1 milhão de foliões no centro do Recife Imagem: Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação

O Carnaval-participação e o despertar da multidão

O Carnaval do Recife e Olinda tem o privilégio de contar com muitos blocos tradicionais, alguns até centenários, como o idolatrado Homem da Meia-Noite, mas por que o Galo da Madrugada, nascido apenas em 1978, tomou a proporção de “maior bloco do mundo” em menos de 20 anos?

“Eu acho que teve o espírito carnavalesco do pernambucano, do recifense, dos amigos, mas principalmente o fato de ser aberto. O lema era Carnaval-participação”, explica Rômulo.

A gente promovia as fantasia e o frevo, que era o que fazia falta no início da década de 80, cada ano o folião ia aderindo e o Galo ia crescendo. No primeiro e no segundo ano, foi uma orquestra de frevo, no terceiro já tinha duas orquestras, depois três, quatro Rômulo Meneses

“Quando a gente viu, tinha 20 mil pessoas, precisava de trio elétrico, aí foi uma polêmica com Neinha, por causa do Carnaval da Bahia. Eu dizia a ele, ‘se tocar samba não vai sair tango, se tocar frevo vai sair frevo’. Até que ele se convenceu, e aí contratamos Claudionor Germano pra sair com o primeiro trio, que não tinha nada a ver com os trios de hoje em dia.”

A ideia de um bloco carnavalesco aberto, até certa medida anárquico, que convidava os foliões não apenas a fazerem parte dele, mas protagonizá-lo com suas fantasias, ganhou a simpatia das pessoas.

Hélvio Polito, hoje com 53 anos, tinha 13 no primeiro desfile do Galo – fantasiado de alma. Ele narra que os grupos de foliões e famílias que chegavam com suas vestes e adereços compunham verdadeiras alas do bloco.

"Tem uma coisa muito interessante, comparado a outros blocos que são mais fechados, o Galo não era assim desde o início. Tinha gente que se fantasiava de todo jeito, grupos que não faziam parte necessariamente, mas que chegavam e se incorporavam, eram alas mesmos. A desorganização do Galo em certa medida facilitava isso. Começou a ser invadido por outros grupos, uma das cenas mais gostosas do Galo era chegar cedo e começar a ver os grupos chegando, gente que era da diretoria do Galo, mas gente que aparecia do nada, eram 40, 50 grupos que chegavam fantasiados, isso fez o Galo crescer muito”, diz Polito, que estava entre as 75 pessoas do primeiro desfile e hoje se mistura com a multidão.

Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação
Em 2007, Galo da Madrugada homenageou os 100 anos do Frevo Imagem: Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação

Galo: carro-chefe do Frevo e o resgate da memória

Hélvio Polito, também criado no bairro de São José, onde sua família tinha uma marcenaria, descortina uma perspectiva interessante sobre a importância do bloco e seu crescimento. Num país mal resolvido com a própria história e assombrado pela sua memória, o Galo seria também uma ponte, em meio às tantas pontes do centro do Recife, das pessoas com as origens da cidade e delas mesmas.

“O Galo nasceu numa época em que o centro da cidade estava na decadência, entre aspas, então foi uma época de revisitar o centro, muita gente só vai pro centro hoje no Galo, no Carnaval. Faz compra no shopping, cinema não é mais lá, vive nos seus bairros e regiões, ir ao Galo é um pouco de se reconhecer, se resgatar, sua infância, sua memória coletiva e individual pelo centro da cidade, o que também fez ele crescer. Voltar ao Galo da Madrugada era uma forma de encontrar muitas pessoas, inclusive. Muitas dessas turmas tiravam fotos anuais, amigos que todos anos se encontravam, todo ano alguém tirava uma foto, dez anos seguidos a gente tirou foto, as pessoas iam envelhecendo com o Galo.”

Outro motivo da explosão do Galo foi que a ideia fundacional de Enéas Freire e seus amigos, de resgatar o Frevo de rua pernambucano e fazê-lo ecoar pela cidade, deu certo. A tradição é tamanha que, até hoje, todos os 30 trios elétricos do bloco são puxados por músicos pernambucanos, com predominância do Frevo como estilo musical. Até o que não é Frevo vira Frevo. É o carro-chefe; neste caso, 30 trios elétricos para o povo “frever” já no Sábado de Zé Pereira.

"O Galo é um elemento como nós, músicos, é um propagador da cultura, da música pernambucana, sempre tendo o Frevo como carro-chefe. Eu mesmo no meu trio fui a pessoa que convidou a primeira artista de grande porte de fora, que foi Elba Ramalho, foi uma luta enorme. E após ela vieram Emílio Santiago, Moraes Moreira, Tony Garrido, quase que todos os artistas de outras tendências, do forró até instrumental, mas sempre tendo o repertório do frevo como base, arranjos próprios de canções desses músicos como marcha de bloco. Há uma preocupação nossa com manutenção da força e do cerne do bloco que é o Frevo”, destaca André Rio, que arrasta a multidão há 27 anos em seu trio no Galo, falando na primeira pessoa do plural.

Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação
Enéas Freire fundou seu primeiro bloco ainda criança e tornou-se o patrono do Galo Imagem: Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação

Enéas Freire: carnavalesco, empreendedor, líder e... 

Nascido no Pátio do Terço, um dos berços do Carnaval de rua do Recife, situado no bairro de São José, Enéas Alves Freire, ou Neinha, foi mais que o idealizador e um dos fundadores do Clube das Máscaras Galo da Madrugada. Sua história se confunde com o Frevo de rua. Ele criou sua primeira agremiação carnavalesca com apenas 12 anos, o Papagaio Louro, e abriu alas de diversas manifestações culturais da cidade a partir de então. Seu veio carnavalesco inundou as ruas do Recife.

André Rio o conheceu bem. Antes de se tornar um dos músicos-símbolo do Galo, ele conviveu desde pequeno com a família de Enéas. O pai de André Rio, Alírio Moraes, era advogado, músico e um dos principais compositores de Frevo de Pernambuco. Vizinho de Neinha, Moraes compôs a canção “O Galo da Madrugada” em 1979 e chegou até mesmo a advogar para o bloco. Presente desde o primeiro desfile, e crescendo em meio àquela efervescência carnavalesca, André Rio enxergou os detalhes.

“Por maior que Enéas fosse como carnavalesco que ele era, com toda paixão, ele também tinha uma visão de empreendedorismo, sempre quis fazer algo mais. Era antenado nas orquestras, pensou em como colocar orquestras de Frevo em cima de trios, pra propagar, dar conta do potencial, teve até certa resistência, mas ele tinha uma visão de colocar o Frevo pra uma maior quantidade de pessoas possíveis. Participei de muitos embates de Enéas com empresas, como a Pitu, sempre defendendo a cultura musical do Frevo. Ele dizia, ‘pra cantar no meu bloco tem que cantar Frevo’, era quase um mantra que ele repetia. Acho que fez diferença o olhar de Enéas, sempre um olhar apaixonado pelo Frevo, mas nunca perdendo a razão de tentar fazer que o negócio siga seu tempo, com patrocinadores, estrutura, até mesmo de banda, eu saio no Galo com 25 pessoas tocando, bons sons, bons trios elétricos”, conta André Rio, que ainda recorda o café com bolo às 17h na casa de Neinha, antes do cuscuz servido para a janta.

“Tudo vinha da cabeça de Enéas. O tema dos anos seguintes, por exemplo, ele gravava alguns discos pra que o Frevo chegasse o ano inteiro na cabeça das pessoas, em setembro, outubro, pra quando chegasse no Carnaval a música tivesse no ouvido das pessoas. A principal forma pra descrevê-lo é que era uma pessoas com absoluta consonância com a paixão e o compasso binário do Frevo, era o dia a dia dele, as músicas, orquestras, trio, sem falar nas alegorias, sempre pensou nisso tudo”, continua André, de fala rápida e marcada.

... o Shrek pernambucano

Se Enéas Freire teve papel fundamental na carreira de André Rio, também teve na trajetória de Nena Queiroga. Carioca de nascença, ela cresceu no Recife e tornou-se a “rainha do Carnaval de Pernambuco” pela boca de Neinha.

“Seu Enéas me dizia que eu seria a voz feminina do Galo. Me livrava a comissão do bloco pra eu conseguir patrocínio, dizia que eu era a mulher do Galo, ele que começou com essa história da rainha do Carnaval de Pernambuco”, lembra Nena, a primeira mulher a puxar um trio sozinha no Galo, após anos de parceria com seu “irmão” André Rio.

Ela fala de Neinha com um carinho especial, numa mistura colorida de admiração, carinho e gratidão. E achou uma metáfora peculiar para descrever o patrono do Galo.

“Sabe o Shrek, grandão, brabo? Seu Enéas era assim, tinha um bocão, mas era um carinho, cuidado, me ensinou a jogar serpentina, confete, parecia criança”, conta Queiroga.

“Tinha uma proteção com o frevo, às vezes até radical, ele queria que o Galo ficasse protegido em relação ao Frevo. Ele conhecia todos os artistas pelo nome, todo mundo se sentia um pouco filho, parente, ao mesmo tempo que era pulso firme, radical, mas era um homem do tempo da palavra. Ele fechava as coisas às vezes não tinha nem contrato, dizia ‘eu sou um homem rapaz, de palavra’, até os patrocinadores comentam. O Galo nunca teve a pretensão de ser o que é hoje, mas surgiu dessa família que ele criou.”

Arquivo Pessoal
André Rio cresceu com o Galo da Madrugada e canta há 27 anos no bloco Imagem: Arquivo Pessoal

O cavalo que aprendeu a frevar

As boas histórias, quase sempre, se guardam debaixo da sombrinha. Uma delas marcou a memória de André Rio com o Galo. Há alguns anos, o bloco alterou seu circuito original no centro do Recife devido aos gargalos criados pelo amontoado de gente. Quem brincou o Galo no passado se lembra do alvoroço, do vuco-vuco que implicava desmaios e até passamentos mais sérios.

“Era uma loucura o antigo trajeto, mas eu sou muito piadista e teve uma vez que fui muito impertinente”, diz André Rio, rindo. “Era uma preocupação todo ano da polícia de não tocar duas canções nessas partes do trajeto, a ‘Praieira’, de Chico Science, e ‘Chuva de Sombrinha’, conhecida como ‘Ai Que Calor’, que é minha mesmo, que na cabeça deles eram as maiores chances de explosão da multidão. Mas na cabeça do artista é justamente o contrário, a gente quer ver essa euforia, essa explosão, e eu cantei essas duas músicas. O policial ficou puto, era de alta patente e subiu no trio, queria desligar o som. Eu disse: ‘a ditadura acabou, meu amigo’. E ainda fiz uma piada que o cara queria me matar: ‘Eu sabia que minha música era um sucesso, mas não imaginava que até cavalo da polícia eu ia botar pra frevar’. Imagine, era década de 90 meu amigo. Seu Enéas quase morre do coração nesse dia.”

Enquanto isso, lá embaixo, no calor daquele ajuntamento todo, os foliões e os cavalos trotavam em Frevo.

Arquivo Pessoal
Nena Queiroga, a ‘rainha do Carnaval pernambucano’ Imagem: Arquivo Pessoal

O Galo no hospital

Nena Queiroga também guarda na lembrança uma história que marcou sua relação com Galo. Não se passou com ela, mas com Rodrigo Menezes, neto de Enéas, filho de Rômulo e Ana Nery, vice-presidente do Galo.

“Rodrigo, na semana previa de uma Carnaval, não faz tanto tempo, estava andando de bicicleta, ele gostava muito. Rômulo dizia pra não andar, ‘tu é doido, vai cair na véspera do Carnaval’, mas ele foi, insistiu”, conta Queiroga.

“Pois ele caiu, ou teve algum acidente, machucou o testículo se não me engano, ou se machucou e não cuidou na hora, sei que foi uma coisa bem séria. Isso foi na sexta, o Galo sai no sábado de manhã. Pois esse menino ficou gerenciando o Galo do hospital. Todo o trabalho que ele faz no chão, com os trios e alegorias, fez do hospital, com câmera, celular, rádio, tudo isso numa cama de hospital. Ele fez uma cirurgia na sexta e comandou o Galo do hospital no sábado. É o amor da família pelo Galo, quando ele fala enche os olhos d’agua, é de historias como essas que sobrevivem o Galo. Claro que tem o lado comercial, pelo tamanho que tem, mas tem esse lado do amor, eles são enlouquecidos pelo Carnaval!”.

Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação
O presidente Rômulo Meneses (esq.), o vice Rodrigo Menezes (dir.) e o porta-estandarte Zacarias homenageiam o escritor Ariano Suassuna Imagem: Arquivo Galo da Madrugada/Divulgação

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