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Rio de Janeiro

Neta de Cartola diz que samba vive "crise existencial" e cobra diálogo

Lígia Hipólito/BOL
Nilcemar Nogueira, neta de dona Zica e Cartola, é presidente do Museu do Samba Imagem: Lígia Hipólito/BOL

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

29/01/2018 04h00

Neta de duas personalidades fundamentais para a história da Mangueira e do samba brasileiro, Dona Zica e Cartola, Nilcemar Nogueira assumiu, em janeiro do ano passado, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Na gestão de um prefeito marcado pela sua ligação umbilical com a Igreja Universal do Reino de Deus, Nilcemar soou como uma surpresa no secretariado por seu histórico de militância pelo samba e manifestações de matriz afro-brasileira.

Responsável pelo dossiê que fez o samba carioca ser reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Nilcemar viu-se no meio do imbróglio entre Prefeitura e sambistas, após o corte de verbas das escolas de samba pelo prefeito Marcelo Crivella. Mesmo não sendo de sua alçada a organização do Carnaval, foi criticada e teve alguns desentendimentos com cartolas do samba. Nesta entrevista exclusiva, Nilcemar faz um apanhado do momento do samba e do Carnaval no Rio de Janeiro em pleno momento de crise institucional e financeira.

Eu sou do tempo em que o samba era uma democracia, onde havia organização social, onde os dirigentes prestavam contas. Hoje eu vejo o sambista sempre à margem da tomada de decisão.

Como foi o convite para assumir a Secretaria? Por que o aceitou e como se viu como alguém que poderia fazer a diferença?

Após a eleição o prefeito me procurou e fez várias perguntas sobre o cenário cultural da cidade. Como ele viveu 10 anos na África e, depois, em Brasilia, achei que ele só estava querendo se inteirar. Dei minha visão, não só como ativista, mas como consumidora. Depois ele me chamou para um segundo encontro. E, durante a fala dele comecei a imaginar que ele me convidaria para algum cargo mais aproximado do público negro, como Direitos Humanos, por exemplo. Quando terminou, ele me convidou para assumir a Secretaria – o que não havia passado na minha cabeça. E pensei: “por que não?”. Serei a primeira mulher negra a ocupar esse lugar. E, logo falei que não sou evangélica, sou ativista e verbalizo tudo que penso. Falei para ele dar um Google no meu nome (risos). Ele disse que já tinha dado e reforçou o convite. E, desde então, estou aqui, sabedora da diversidade cultural do Rio de Janeiro e sempre aberta para ouvir todos os agentes, de todas as manifestações da cidade.

Fábio Teixeira/BOL
Nilcemar Nogueira posa ao lado da escultura de seu avô, Cartola, no Museu do Samba Imagem: Fábio Teixeira/BOL

O samba te viu como uma representante? O samba é organizado em relação à ação política?

O samba me viu como representante, sim. As escolas estiveram presentes em massa na minha posse, assim como os baluartes do samba. Todos se sentiram representados. Mas, até agora não tive demandas efetivas do pessoal do samba, mas não acho que tenha sido por falta de organização. Eu faço a leitura de que o povo pensa que eu sou uma defensora deles e que eu já tenha o trabalho de casa pronto. Não vieram as demandas, mas eu os provoquei dizendo que o samba é minha pauta, mas agora eu ganhei várias novas pautas, já que sou secretária de Cultura.

Você ainda acha que o samba é a principal expressão cultural do Rio de Janeiro?

Acho. Sem dúvida nenhuma. Apesar disso, a resistência contra o samba existe de forma muito forte de vários setores. O samba precisa e deve ser visto por toda sociedade carioca como seu maior bem cultural. Até o ponto em que ele é a principal referência cultural do país. Fazer o samba ser valorizado é um processo e não acontece da noite para o dia.

O samba hoje perde espaço para outros gêneros como o sertanejo. O que o poder público pode fazer para minimizar esse quadro?

Eu acho que o poder público tem que fomentar suas bases culturais em toda a sua cadeia, que começa fundamentalmente com os detentores do saber – sem eles, o resto do processo não existe. O sertanejo sempre será bem-vindo, mas não com dinheiro público. Se você tem uma agenda de sertanejo durante o Carnaval e que pode competir com a principal festa da cidade, é sinal de que estamos valorizando muito mal nosso principal ativo cultural. Qual o papel do poder público em relação ao seu maior bem cultural? Não é só patrocinar. A discussão é muito maior do que isso. Há mais de 10 anos, quando fizemos o dossiê que fez o samba ser declarado patrimônio imaterial, alertávamos que o samba estava ameaçado e chamamos a atenção de que as suas bases culturais estavam sendo perdidas. Eu me lembro de ter dito ao presidente da Liesa, Jorge Castanheira: “os sambistas são a alma desse grande negócio. Se você descola o corpo da alma, o corpo está morto”. Estamos em meio a uma crise existencial.

Você acha que as escolas de samba ainda têm um papel fundamental neste processo da salvaguarda do samba?

Elas deveriam ter. Perderam porque se desconectaram. Elas nasceram como território de organização, de convivência, de prática. E isso é o que garante a salvaguarda, a transmissão de saberes ancestrais. O samba já foi uma poderosa arma de afirmação social, porque nasceu em meio a pessoas que estavam à margem das políticas públicas e, pela valorização do samba, surgiu um diálogo. Nesta troca, aconteceu uma inversão de papéis, com a indústria cultural se apossando e enfraquecendo essas bases. O sambista de hoje tem que conhecer a história para entender que a força está com ele. Afinal, foi com toda a falta de estrutura, o samba chegou onde chegou. Eu sei muito porque convivi com um dos protagonistas da história, que é meu avô. A solução é muito simples: basta que os mandatários tirem cinco minutos para ouvir os sambistas. O Rio vive uma crise de violência, uma crise econômica. E o samba, com sua capilaridade, pode ajudar a minimizar esse quadro violento e ajudar o turismo, pulsando doze meses por ano, com impacto social, cultural e econômico.

Facebook/Reprodução
Nilcemar Nogueira é secretária municipal de Cultura Imagem: Facebook/Reprodução

As escolas hoje só pensam no desfile?

Sim. Se você pensar apenas no entretenimento, no evento, você se esvazia culturalmente. Tanto que hoje as escolas de samba são de responsabilidade da Riotur (empresa de turismo do Rio de Janeiro).

A Secretaria de Cultura deveria estar envolvida no Carnaval? Você já conversou com o prefeito para tentar uma integração maior?

É imprescindível. Estamos falando do principal ativo cultural da cidade na dimensão humana, social, cultural e econômica. É preciso rever essa relação. Eu sigo com minha pauta de compromisso com o sambista. O Terreirão do Samba (área de shows vizinha ao Sambódromo) é um exemplo, que era um equipamento usado só no Carnaval e agora é usado o ano todo, com uma programação totalmente voltada para o samba, em todas as suas tendências, da raiz ao pagode, passando pelo samba-enredo.

Quando o prefeito anunciou o corte de verbas, você fez um pronunciamento no Facebook que repercutiu mal entre os sambistas, que interpretaram que você teria sido a favor da medida...

Eu não fui a favor do corte de verbas. Eu entrei nessa seara para que acontecesse o quanto antes a conversa entre a Riotur, o prefeito e as escolas. Para isso, perguntei para o presidente da Riotur se queria que ajudasse nessa articulação, já que temia que ele e o prefeito não sabiam o cronograma. Ele aceitou minha ajuda, nos reunimos com o prefeito e falei da necessidade de termos um calendário mais bem ajustado. A tendência é que as verbas saiam no ano que vem com maior antecedência. Acontece que o presidente da minha escola, Francisco de Carvalho, resolveu difundir entre os presidentes das escolas que eu teria interferido nos valores a serem repassados. Eu me pronunciei falando que esse dinheiro não sai da minha pasta. E expliquei que encontramos a prefeitura com um déficit de R$ 4 bilhões, o que impossibilitou muitas coisas no orçamento.

Mas, supondo que o dinheiro viesse de sua pasta. Os R$ 2 milhões anteriormente repassados eram um valor justo ou você reduziria? As escolas de samba precisam encontrar outras formas de financiamento que as deixem menos dependentes do poder público?

Acho que as escolas do Grupo Especial têm que procurar outras formas de financiamento. As dos outros grupos, ao contrário, têm de ter suas verbas aumentadas, já que elas não têm o apelo de mídia que as grandes escolas têm. E faço a pergunta: quem fez o desfile das escolas de samba chegar a esse ponto. Quantos sambistas opinaram? Nada contra o grande espetáculo, mas isso tudo que temos não contaram com a opinião dos sambistas. Será que os sambistas preferem o tamanho e o número de alegorias que temos hoje? As escolas decidiram não fazer o ensaio técnico alegando dificuldades financeiras. Isso foi discutido com os sambistas? É preciso que as escolas dialoguem com os sambistas, ouçam mais seus componentes. Eu sou do tempo em que o samba era uma democracia, onde havia organização social, onde os dirigentes prestavam contas. Hoje eu vejo o sambista sempre à margem da tomada de decisão. Esses papéis precisam ser repactuados.

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