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Trabalhando em família, Jorge Freitas quer ser duas vezes campeão em 2018

Soraia Gama/UOL
Carnaval é assunto sério para a família de Jorge Freitas Imagem: Soraia Gama/UOL

Soraia Gama

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/01/2018 04h00

A conhecida frase “Nenhum homem é uma ilha”, do poeta inglês John Donne, cai como uma luva para Jorge Freitas. O carnavalesco da Império de Casa Verde trabalha há muitos anos ao lado da mulher, Beth, e dos filhos Taiana e Vinícius. Inserido no Carnaval de São Paulo desde o desfile de 2000, quando esteve à frente da Gaviões da Fiel, Jorge foi o desbravador da capital paulista para depois trazer o resto da caravana.

Hoje moram todos juntos em uma grande casa no Jardim São Bento, bairro nobre na zona norte da capital paulista: Jorge, Beth, os filhos, dois netos [Duda e Jorginho], a vovó Léa, quatro cachorros e quatro gatos. ”É muito forte a nossa relação. Não é tudo às mil maravilhas, mas não tem briga. Temos respeito. Um tem de ouvir a opinião do outro. Nós, como pessoas públicas, precisamos saber ouvir porque as críticas vêm e precisamos tirar o melhor dela”, diz Jorge.

Arquivo Pessoal/Divulgação
Jorge Freitas é diretor de Carnaval da Império de Casa Verde Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação

O envolvimento familiar vem de muito tempo. O pai também era um apaixonado pelo Carnaval. Além de levar seu filho único para ver os desfiles de blocos, sempre acompanhou o trabalho de Jorge e atuava com primor em tudo o que se referia às ferragens das alegorias. “Ele faz muita falta”, confessa o carnavalesco, que nos áureos concursos de fantasias no clube Monte Líbano, no Rio de Janeiro, marcou muita presença ao lado de Clóvis Bornay e Wilza Carla. Já naquele período o carnavalesco de Nova Friburgo nunca esteve sozinho: Jorge desenhava, a mãe costurava [e bordava um a um todos os paetês], e Beth desfilava suas obras-primas.

“Minha sogra não podia ver um defeitinho que desmanchava tudo para refazer com perfeição”, conta a esposa do carnavalesco e dona do ateliê de fantasias que hoje trabalha para as duas escolas nas quais a família está envolvida: Império de Casa Verde (do Grupo Especial) e Águia de Ouro (Grupo de Acesso).

O primeiro contato dos dois foi em uma disputa de bandas [de fanfarra] de colégios rivais, e o casamento aconteceu quando ainda eram muito jovens: Beth 17 e Jorge 19 anos. Depois montaram uma banda em um orfanato e sempre caminharam lado a lado.

Arquivo Pessoal/Divulgação
Jorge e a filha, Taiana Imagem: Arquivo Pessoal/Divulgação

Sabendo um pouco mais sobre a vida e formação de Jorge, fica fácil entender por que ele é conhecido e reconhecido por ser linha dura e exigir um acabamento primoroso em tudo o que apresenta no Sambódromo. Além do perfeccionismo herdado da mãe, suas formações como educador físico e regente têm como base a disciplina. “O 'não' é muito importante. Ser só bonzinho não funciona. Tem de falar quando algo está errado. E as pessoas se ligam quando os resultados aparecem”, diz ele, que trata os componentes da escola como seus alunos.

“Quando dou uma bronca em qualquer que seja o componente [da escola] ele vai encarar como um alerta. Se outra pessoa der a mesma bronca é capaz de ele não querer mais voltar”, garante Jorge, que ganha o aval e um elogio de Beth: “Ele tem o dom de ensinar”.

Mais que carnavalesco

Com sete títulos [Especial SP: 2016 (Império de Casa Verde), 2010 (Rosas de Ouro), 2002 e 2003 (Gaviões da Fiel); Acesso SP: 2007 e 2005 (Gaviões da Fiel); Divisão B RJ: 1996 (Arranco)], Jorge Freitas é um dos carnavalescos mais respeitados e bem pagos do Carnaval paulistano. E não é para menos.
Foram oito carnavais na Rosas de Ouro, de onde saiu em 2015. Nos dois primeiros [2008 e 2009] ele era apenas o carnavalesco, mas a história mudou. “Não obtive resultado no início, então falei ‘se não for para ser diretor geral e ter tudo dentro da linha para que a minha plástica se sobressaia, eu não vou conseguir nada’. E aí assumi a direção geral”, explica Jorge. No ano seguinte conquistou o título com o enredo que falava sobre o cacau.

“Esse é o caminho! Abrir a escola durante o ano todo para que as pessoas possam participar. Não só do Carnaval, mas de dança, teatro, música. No Rosas eu montei até banda [de fanfarra]! Queria eu ter uma escola que tivesse alfabetização, berçário... “, sonha Jorge.

Desejos como esse enchem de brilho os olhos do carnavalesco, assim como a história da componente que se emocionou ao participar do espetáculo para apresentação do enredo de 2018. “Ela já é uma senhora com netos e chorou muito no dia do ensaio geral. E aí me disse: ‘Eu nunca fui ao cinema nem ao teatro. E hoje eu vou ser artista!’”, relembra Jorge, deixando o cara durão um pouco de lado. “A socialização no Carnaval é o mais importante. É a coisa de dar oportunidade. A escola de samba faz isso.”

Soraia Gama/UOL
O carnavalesco Jorge Freitas em sua casa Imagem: Soraia Gama/UOL

"Só agradeço a Deus pelo pai que tenho"

Mentira se Jorge dissesse que consegue deixar o tema Carnaval fora dos almoços de domingo (e de segunda, terça...). “Não ia conseguir nunca! É em casa que a gente consegue discutir o certo e o errado. Quem está fora tem outro olhar e esses alertas são interessantes. E aproveito muito o exemplo que tenho dentro de casa, da união da família, para levar para o Carnaval.”

A tática dos Freitas tem sido fazer uma escola do Acesso e outra do Especial. Assim, as torcidas não se dividem. Mas qual a saída se a escola do Acesso subir? Por enquanto a família torce e trabalha pelo título das duas agremiações e prefere não pensar no assunto – em 2017, quando a Independente foi para o Especial, Vinícius assumiu a Águia de Ouro.

O filho caçula tem a ajuda do pai como diretor de carnaval na escola da Pompeia. Isso significa que, obviamente, terá muito de Jorge Freitas no desfile. “Tem o perfil Jorge porque ele [Vinícius] se espelha no meu trabalho. Ele é muito bom nas ideias e tem as características dele. Um exemplo é o movimento nos carros. Eu não gosto e ele é fã [risos].”

Vinícius não esconde o orgulho que sente pelo pai. “Digo que melhor professor é impossível. A nossa diferença está nos movimentos das alegorias”, concorda ele. “O resto eu costumo seguir o máximo possível. Se eu conseguir um porcentinho já estarei satisfeito. Sou fã dele! Só agradeço a Deus pelo pai que tenho. E o profissional que tenho em casa, meu Deus do céu, é o mais competente nesse meio do Carnaval. E ele ama o que faz”, valoriza Vinícius.

Para retribuir o que recebe do pai, o carnavalesco da Águia sempre o acompanha na Avenida. “No dia do desfile ele é funcional 100%”, elogia Taiana. “Em relação à técnica do desfile eu sou o braço direito do meu pai. Na Evolução, Harmonia... Você vai me ver na pista o tempo todo, sempre dentro das alas”, explica ele.

Música, esporte e Carnaval estão no DNA da família

Nos anos 1980, quem diria, Jorge defendeu a seleção friburguense de vôlei nas posições de oposto e levantador. Fato que o incentivou a criar seus filhos no esporte: Vinícius jogou basquete no Flamengo e Taiana, aos 11 anos, chegou a morar em Boca Raton (EUA) para participar de mundiais de ginástica artística. No Brasil, ela era baliza nas bandas de fanfarra nas quais Jorge regia e Beth tocava caixa ou lira. “Tinha época em que eu e meu pai competíamos para ver quem tinha mais troféus”, brinca Taiana.

Diretora artística na Império [cargo recém-criado na escola], a primogênita de Jorge também atua ao lado do irmão na Águia. Além da trabalhar nas coreografias, inovou o aquecimento dos ensaios com zumba e alongamento. Tudo para ajudar no condicionamento dos componentes da escola.
“Nossa vida sempre foi voltada para esporte. Por isso temos tanta disciplina no que fazemos. Sou chata. Começo a ensaiar uns oito meses antes do desfile”, conta Taiana, que atribui sua postura também ao convívio com o pai e suas ex-técnicas, todas "linha dura" como Jorge.

Soraia Gama/UOL
Vinícius Freitas, filho de Jorge Freitas Imagem: Soraia Gama/UOL

“É muito trabalho, mas tenho a Juliana e a Flávio que me ajudam muito. E meu irmão”, diz, toda sorridente, assumindo que não é fácil trabalhar em família. “Ainda mais ela que é ciumenta e chata”, provoca Vinícius, em tom de brincadeira. “Sou tinhosa, ciumenta e protetora. Eu sei”, concorda a irmã mais velha. 

O clima é de total descontração. Até Duda, filha adolescente de Taiana, marca presença na bancada do ateliê da avó ajudando a fazer as fantasias da bateria da Império. “Por enquanto ela não tem paixão pelo Carnaval. Ela é mais dos livros. Adora ler, mas sempre desfila para prestigiar a família”, justifica Beth. Já o bebê de Taiana, de quase 2 anos, provavelmente vai herdar o talento da família. “Eu desfilei 'gravidíssima'. E ainda fui para o desfile das campeãs! A médica quase enlouqueceu”, entrega a mãe de Jorginho.

Ele é a cara de São Paulo

Jorge Freitas nasceu em Nova Friburgo (RJ). Coincidência ou não, veio ao mundo no dia do aniversário de São Paulo: 25 de janeiro. Quer mais? É hiperativo, dorme pouco e faz muitas coisas ao mesmo tempo.

“Durmo muito tarde e acordo muito cedo. Tenho insônia e penso demais o tempo todo”, diz ele, que é assumidamente apaixonado por São Paulo. “Eu me sinto paulistano, mas não esqueço das minhas raízes friburguenses. Nunca! Mas adoro essa cidade [São Paulo]. Essa é a terra da oportunidade”, diz o carnavalesco. “Hoje São Paulo é a nossa base de vida. E luto muito pelo Carnaval de São Paulo. Fiz muitos amigos aqui. Acho que meu jeito rígido e do interior cativa as pessoas.”

Para Jorge, faz um tempo que o Carnaval deixou de ser só folia. “O Carnaval em São Paulo está ganhando espaço e ficando mais profissional. As pessoas veem que direta ou indiretamente estamos empregando diversas pessoas, diversas famílias. O samba não pode perder sua essência de samba enquanto raiz, mas tem de se profissionalizar porque o mercado pede isso. Se a gente diz que é o maior espetáculo do Brasil e um dos maiores do mundo, a coisa tem de ser organizada”, conclui.

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