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Rio de Janeiro

Em meio à crise, musas e rainhas cariocas reciclam e revendem fantasias

Divulgação/JoiceFurtado
Egili Oliveira pagou R$ 7.000 em sua fantasia da Renascer de Jacarepaguá, no ano passado. Em 2018, seus gastos vão ficar na casa dos R$ 15 mil Imagem: Divulgação/JoiceFurtado

Ana Cora Lima

Do UOL, no Rio

01/02/2018 04h00

Penas, pedrarias e muito brilho não podem faltar às musas e rainhas de bateria das escolas de samba, e tudo isso custa uma bela grana. Um traje da realeza da Sapucaí pode custar até R$ 35 mil, quase o valor de um carro popular. Até o ano passado, havia apoio financeiro das agremiações para algumas, mas neste ano o dinheiro sumiu e a regra é cada uma paga a respectiva fantasia. A reportagem do UOL conversou com beldades do Grupo de Acesso que falam abertamente sobre a prática, diferente das musas das principais escolas cariocas, que preferem não comentar para evitar mal-estar entre as partes.

Divulgação
Michelly Boechat recicla suas fantasias e quando compra material novo paga parcelado Imagem: Divulgação
"Os postos de musas e rainhas são considerados vitrines e, por isso, as escolas nunca fizeram muita questão de arcar com as despesas. Tirando as meninas da comunidade, aquelas que ainda não tem a mídia em cima, eles não pagam. Dizem que têm outras prioridades e aí não tem muito como discutir, o jeito é abrir a carteira", conta uma atual rainha de bateria de uma grande escola, que pediu anonimato.

Atual musa da Renascer de Jacarepaguá e há 20 anos desfilando na Sapucaí, Egili Oliveira sempre pagou por suas fantasias. Atriz e professora de samba pelo mundo afora, a cada ano ela monta uma planilha mensal para ter como pagar seus figurinos. Em 2017, ela gastou R$ 7.000 e neste ano vai ficar na casa dos R$ 15 mil. "Graças a Deus, vivo do Carnaval com as aulas e os shows que faço no Brasil e no exterior. Não perco as fantasias porque eu uso nas apresentações. É um investimento, mas tenho retorno”, pondera.

Aos 35 anos, Egili fala também da reciclagem, prática comum nos barracões. “Quanto mais claras as penas, melhor fica para pintar e trocar de cor. Também tem como reaproveitar alguns cristais”, ensina.

Michelly Boechat, 32, sabe bem como é isso. Musa da Porto da Pedra, ela deu uma nova roupagem para a fantasia do ano passado. “Tive muita sorte. Em 2017, dentro do enredo, eu vim representando as Marchinhas e, neste ano, a escola fala das divas da canção da década de 80 e deu para casar. Claro que dei uma melhorada, peguei penas emprestadas para realçar mais a fantasia e acabei investindo mais em pedrarias. Economizei uns R$ 5.000 do que eu esperava gastar", conta. No total, o traje vai sair por R$ 8 mil.

Formada em Educação Física e terminando a Faculdade de Nutrição, Michelly bem que tentou aposentar os biquínis e os costeiros, mas não conseguiu. "Comecei a desfilar com 16 anos e parei para estudar, me formar, estabilizar na carreira, até começar outra faculdade. Foram oito anos longe, mas voltei ano passado porque é muito amor. E só mesmo o amor ao samba explica tanto sacrifício. São muitos gastos! Tem roupas das apresentações, maquiagem, cabelos, tratamentos estéticos e, claro, a fantasia. O Carnaval acaba na Quarta-Feira de Cinzas, mas as dívidas continuam porque eu pago tudo parcelado”, diz a musa da escola de São Gonçalo.

Arquivo pessoal
Penas de faisão de uma fantasia passada que vão ser reciclado em um atelier Imagem: Arquivo pessoal
Já a Madrinha de bateria da Estácio de Sá, que está no Grupo de Acesso, Letícia Guimarães procura não fazer dívidas com as fantasias. Passista profissional, ela tem facilidade para comprar todo o material fora do país -segundo ela, quase pela metade do preço- nas viagens a trabalho. Quando é necessário, ela recicla, mas geralmente faz novas também por outro motivo: ela vende as roupas usadas.

"Descobri essa fatia do mercado. Vendo para as musas de outros Estados e tem uma procura grande porque o Carnaval do Rio é um espelho. Vestir uma fantasia que foi de uma rainha ou musa de escola do Rio é o máximo", valoriza.

Letícia é quem está bancando uma das fantasias mais luxuosas do Grupo de Acesso. "Ainda não fiz as contas, mas acho que já passou de R$ 25 mil. Se vale a pena investir? No meu caso, sim, porque eu trabalho com isso, vivo de samba fora a minha profissão, como professora de Educação Física. Invisto, mas tenho retorno", garante.

A musa escolheu o estilista Sandro Carvalho, do atelier Chateau Rouge, para confeccionar sua fantasia. Responsável por 21 fantasias de musas e rainhas dos Grupos Especial e de Acesso, Sandro diz não ter notado queda na procura dos seus serviços. Pelo contrário.

"Tivemos 30% de aumento na procura por nossos trabalhos. A cada ano eu percebo que as meninas vão já fazendo um pé de meia, vão poupando uma grana para produzir um belíssimo figurino para a folia. Elas sabem que não podem contar com ajuda da escola, mas nem por isso abrem mão do brilho, do glamour e de arrasar na avenida", diz o estilista, que também confirma a reciclagem de penas de faisão. "São os itens que deixam mais caras as fantasias. Neste ano, a média das fantasias varia de R$ 15 mil a R$ 20 mil. Quem está na casa dos R$ 30 mil está podendo. É lenda, essa coisa de que uma a fantasia custou R$ 50 mil", entrega.

Também estilista e dono do atelier que leva seu nome, Alan Faria diz que a criatividade tem sido a arma para driblar a falta de grana de algumas musas. "Hoje em dia, nós temos acesso a materiais incríveis com preço melhores e isso abre um leque de acordo com as posses das meninas. Têm musas, passistas e rainhas que reciclam, outras investem em fantasias novas e elas pedem exclusividade e aí que entra a criatividade para trocar peças caras por coisas mais em conta e no final ter um resultado maravilhoso."

Foto Divulgação
A musa Letícia Guimarães viaja bastante e compra cristais e faisões no exterior: "Diminuiu os gastos" Imagem: Foto Divulgação

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