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Blocos de rua

Blocos do Rio preparam ofensiva para homens que não entendem que não é não

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

08/02/2018 11h31

Campanhas e ações efetivas durante os cortejos do Carnaval carioca prometem reprimir assediadores. Aqueles que não entenderem que não é não, em uma tentativa de paquera, poderão até ser obrigados a sair do bloco.

No ano passado, um balanço da Polícia Militar revelou que ao menos uma mulher foi agredida a cada quatro minutos no Estado do Rio. Nos dias de Carnaval, entre 24 de fevereiro e 1º de março, foram feitas 15.943 solicitações, sendo que destas 2.154 chamadas foram pedidos de socorro sobre violência contra mulher.

Para conscientizar os foliões sobre o assédio, alguns cortejos terão ações como a que vai acontecer na Orquestra Voadora, bloco que sai às terças-feiras de Carnaval no Aterro do Flamengo. Uma tenda será montada no percurso do bloco com três advogadas, psicólogas e mulheres membros do coletivo Todas por Todas para dar acolhimento e orientação a possíveis vítimas. Outros advogados “à paisana” também estarão espalhados pelo bloco para identificarem situações de assédio e oferecer ajuda.

“O bloco une cerca de 100 mil pessoas que pensam e se comportam de maneiras diferentes. Temos que dar suporte. A ideia surgiu porque os casos de assédio acontecem. Sempre ouvimos relatos. Aí este ano o coletivo resolveu se juntar à Orquestra”, explicou a tradutora Ju Storino, 33, música do bloco e integrante do coletivo feminista.

O foco da campanha, segundo Ju, é estimular as mulheres a se apoiarem. Com um carimbo, integrantes do coletivo vão carimbar a frase “Conta comigo, eu não ando só” nos foliões do bloco.

“Neste ano a campanha é focada em chamar as mulheres para contar umas com as outras, para fazer valer a sororidade. Se vir outra mulher em perigo, deve interferir, mas sem se colocar em risco. No momento do carimbo, rola uma troca de ideias, com mulheres e com homens. Mas nosso foco é cuidar das mulheres. Conversamos com os homens que estão abertos a ouvir”, afirmou a música.

Casos mais graves, explicou a tradutora, podem até fazer os músicos pararem de tocar, como ocorreu em alguns blocos em ensaios no pré-Carnaval.

“Vão parar de tocar porque as mulheres vão fazer isso acontecer. Espero que não precise, mas não vamos aceitar mais. Se tiver que parar a festa, vamos parar. Não dá para aceitar conviver em um ambiente hostil, que era para estar confortável e alegre”, disse Ju.

No Mulheres Rodadas, bloco de protagonismo feminino que sai na quarta-feira de Cinzas no bairro do Flamengo, uma viatura da Polícia Militar vai acompanhar o cortejo.

“Eles se demonstraram sensibilizados com a questão da violência contra a mulher e vão, mesmo com a demanda de policiamento em blocos oficiais, o batalhão vai remanejar um efetivo próximo para acompanhar nosso cortejo. Se acontecer um caso grave de assédio, o homem poderá ser levado para a delegacia”, explicou Renata Rodrigues, uma das fundadoras do bloco.

Além da presença da PM, discursos ao microfone vão orientar sobre a questão do assédio e 30 voluntários que acompanham o cortejo também vão observar as atitudes dos foliões.

Durante o Carnaval, a Comissão da Mulher da Câmara Municipal do Rio, fará a campanha #CarnavalSemAssédio e vai distribuir leques com orientações em 11 blocos. Os interessados também podem pegar na Câmara os leques para distribuir.

Outro bloco que também sai tradicionalmente na quarta-feira de Cinzas na Cinelândia, centro do Rio, o Me Beija que eu Sou Cineasta vai vender pulseiras douradas com a frase “Me respeite”.

Segundo uma das criadoras do bloco, a cineasta Natara Ney, as pulseiras já são tradicionais no bloco. “Tem a pulseira azul para quem beija só meninos, vermelha para quem beija só meninas, a verde para quem beija os dois e a preta para quem beija qualquer coisa que respire, que é nossa homenagem ao Serguei. A pulseira dourada pede respeito em todos os aspectos, respeita minha sexualidade, meu axé, meu ateísmo, minha cor e meu não. Não acho que um 'quer dançar comigo?’ seja ruim', mas é ruim continuar a insistir depois do não”, afirmou Natara.

As pulseiras serão vendidas a preços dados pelos próprios foliões, a partir de R$ 0,50. A renda será revertida para a Casa Luana Muniz, na Lapa, que atende travestis em situação de vulnerabilidade, idosos e faz distribuição de cestas básicas a famílias carentes.

No bloco Sereias da Guanabara, que sai no sábado (10), quem assediar também poderá ser expulso, isso vale também para os preconceituosos.
“Sempre damos voz aos LGBT e às mulheres. Em todas as festas falamos ao microfone que se houver [assédio], colocamos para fora da festa. Aconteceu em uma festa, onde um cara me assediou e várias outras mulheres. Paramos a festa e ele foi colocado para fora pelos seguranças”, disse a atriz Jamile Moreira, 31, que faz parte do bloco.

“No bloco, se acontecer, vamos parar. Vou avisar, vou entrar no meio e parar. Mulher tem que ter voz, isso não é normal. Você tem que estar do jeito que quiser. Lutamos para o bloco fortalecer as mulheres. Queremos agregar”, afirmou. Nos blocos do Rio também serão distribuídas tatuagens com a frase “Não é Não”, criado por um grupo de mulheres que bancou a ação por meio de um crowdfunding. Serão cinco mil tatuagens temporárias.

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