Você sabe qual foi o primeiro samba-enredo do Carnaval? Veja a história

Jorge Araújo/Folhapress
Sambas-enredo ganharam importância com o crescimento do Carnaval; na imagem, a Vila Isabel em 1988 com o tema "Valeu, Zumbi! Um grito forte dos Palmares..." Imagem: Jorge Araújo/Folhapress

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

09/02/2018 04h00

Na maioria das vezes, ele é composto para embalar uma escola de samba por pouco mais de uma hora – tempo que dura o seu desfile. Porém, em muitos casos, a qualidade das obras apresentadas na avenida é tamanha que seus versos ecoam, até hoje, em blocos, bailes e festas de Carnaval por todo o mundo.

Sem falar das regravações por muitos artistas da MPB que fazem, em diversos casos, o público desconhecer o fato de que a música que tanto adora já embalou uma escola de samba na Sapucaí. Do início romântico à era da comercialização, conheça, a partir de agora, a história do gênero que é a cara do Carnaval carioca.

Os primórdios

O primeiro desfile das escolas de samba foi realizado em 1932 na lendária Praça Onze (destruída nos anos 1940 para a abertura da Av. Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro). Nos primeiros anos, as escolas, apesar de já possuírem enredo, não tinham um samba-enredo definido. Em muitos casos, as agremiações, que não passavam de 200 componentes, cantavam até mais de um samba – compostos sempre de um refrão principal, que era repetido por todos e por versos improvisados pelos “versadores”, a primeira roupagem dos puxadores de samba. Detalhe: os sambas nada tinham a ver com o tema do desfile.

Qual foi o primeiro samba-enredo?

Pesquisadores e estudiosos divergem sobre qual teria sido o primeiro samba-enredo da história. Há quem diga que “O Mundo do Samba”, apresentado pela Unidos da Tijuca em 1933 tenha a primazia. Dentre os três sambas apresentados pela Mangueira em 1935, um, de Cartola, Carlos Cachaça e Artur Faria tinha mais proximidade com o enredo “A Pátria”. A Azul e Branco do Salgueiro (uma das escolas que daria origem à poderosa Acadêmicos do Salgueiro), em 1938, trouxe o samba de Antenor Gargalhada que serviu como uma luva para o tema “Asas para o Brasil”. Uma obra fundamental é “Teste ao Samba”, de Paulo da Portela, que embalou o desfile sobre o mesmo tema em 1939.

O samba-enredo se consolida

O desfile das escolas de samba foi financiado pela primeira pela Prefeitura do Rio em 1935. Com o Estado Novo, o governo de Getúlio Vargas intensifica a adoção do samba como um símbolo cultural do país. Em contrapartida, os sambistas passaram a se submeter a regulamentos mais rígidos. Com a obrigatoriedade da apresentação de temas de cunho nacional, as escolas, aos poucos, começam a se preocupar em fazer sambas que tenham verdadeiramente ligação com os enredos apresentados. Um marco dos anos 1940 é “Exaltação a Tiradentes” (Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado), samba que embalou o campeonato do Império Serrano em 1949 e que depois seria regravado, com grande sucesso, por Elis Regina.

O "samba-lençol"

Na década de 1950, o desfile das escolas de samba se consolida como a principal atração do Carnaval carioca e passa a acontecer na Avenida Rio Branco, até então, ponto nobre da folia. Os sambas-enredos passam por um processo de sofisticação. Bastante extensos, com rimas apuradas e, em muitas vezes com mais de 40 versos, são conhecidos como “lençol” pela particularidade de “cobrir o enredo todo”.

Nos anos 1960, o desfile se transfere para a Avenida Presidente Vargas e as primeiras arquibancadas são construídas para comportar o público – muitas vezes, estimado em mais de 500 mil pessoas. Neste período, duas escolas passam a se destacar com sambas que hoje fazem parte de qualquer antologia: Império Serrano e Salgueiro.

O Império conquistou esse status graças a compositores como Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara, Penteado e, o maior deles, Silas de Oliveira. Obras como “Aquarela Brasileira” (1964), “Os Cinco Bailes da História do Rio” (1965) e “Heróis da Liberdade” (1969) são obrigatórias em qualquer tentativa de se contar a história do Carnaval através dos sambas.

Guto Costa/Divulgação
Dona Ivone Lara, um dos grandes nomes da composição de sambas do Brasil Imagem: Guto Costa/Divulgação

Já o Salgueiro marcou época com uma nova proposta de enredos e visual. Comandada por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, a escola trouxe temas negros para a avenida e, sem se esquecer da importância da música, legou à história do Carnaval sambas como “Chica da Silva” (1963), “Chico Rei” (1964) e “Dona Beja, a Feiticeira do Araxá” (1968), graças à criatividade de poetas como Noel Rosa de Oliveira, Anescarzinho, Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Aurinho da Ilha.

Modernidade e sucesso no rádio

No final dos anos 1960, o samba-enredo começa a se modificar graças a um fator primordial: o lançamento do LP com os hinos das escolas. A primeira “bolacha” foi lançada em 1968 e serviu para popularizar os sambas, que anteriormente só eram conhecidos pelo grande público no momento do desfile. Com a inserção do samba-enredo no mercado musical, uma consequência natural foi a simplificação na estrutura. Com menos linhas, palavras mais coloquiais e refrãos fortes, o samba-enredo estava pronto para conquistar o mercado radiofônico. Antes mesmo de o primeiro disco ser lançado, a Mangueira fez grande sucesso com seu samba “O Mundo Encantado de Monteiro Lobato” (1967), gravado por Eliana Pitman.

Três compositores passam a se destacar: na então pequena Unidos de Vila Isabel, Martinho da Vila emplaca sambas como “Carnaval de Ilusões” (1967), “Quatro Séculos de Modas e Costumes” (1968), “Yayá do Cais Dourado” (1969) e “Glórias Gaúchas”(1970). De melodias pegajosas e letras que dialogavam com cantigas populares, estas obras consolidam Martinho como um dos maiorais do samba e dão à sua escola um outro patamar. Na Imperatriz Leopoldinense, Zé Katimba surge na mesma linha e emplaca “Martin Cererê” (1972), o primeiro samba a ser trilha sonora de uma novela (Bandeira 2, da Rede Globo). E no (sempre) inovador Salgueiro, Zuzuca emplaca “Festa para um Rei Negro” (1971), mais conhecido como “Pega no Ganzá” – até hoje cantado em blocos e bailes e que virou até música da torcida do Barcelona.

Marcos Pinto/BOL
Martinho da Vila rapidamente se destacou na Vila Isabel Imagem: Marcos Pinto/BOL

Presente obrigatório no Natal

Nos anos 1970 e 1980, o samba-enredo atinge o seu apogeu midiático. Graças ao sucesso do disco nas rádios e da transmissão pela televisão (que, a partir de 1972, tornou-se colorida), os hinos das escolas de samba cariocas tornam-se uma coqueluche, com recordes de venda de LPs a cada ano. Ao lado do disco anual de Roberto Carlos, o álbum das escolas de samba torna-se um item obrigatório nas árvores de Natal de muitas famílias brasileiras. Em 1989, o álbum bateu seu recorde de vendas, com mais de 1 milhão de cópias comercializadas.

Neste período, foram gerados muitos sambas que até hoje são cantados de norte a sul do país. Como exemplos, as obras da então novata União da Ilha do Governador como “Domingo” (1977), “O Amanhã” (1978), “É Hoje” (1982) e “Festa Profana” (1989). Compositor de mão cheia, David Correa emplacou sucessos na Portela como “Hoje tem Marmelada” (1980) e “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite” (1981) na Portela, além de fazer sucesso com “Skindô, skindô” (1984), no Salgueiro. David ainda venceria sambas na Imperatriz, Mangueira, Vila Isabel e Estácio de Sá, sendo um dos precursores do que se tornaria rotina nos anos seguintes: compositores que não se prendem mais a apenas uma escola – consequência do negócio lucrativo que o mercado de samba-enredo se tornou.

Este período ainda legaria para a história do Carnaval obras seminais, como “Bumbum, paticumbum, prugurundum” (Império Serrano, 1982), “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós” (Imperatriz, 1989) e “Kizomba, a festa da raça” (Vila Isabel, 1988) – símbolos de uma época em que ter um bom samba era meio caminho andado para a vitória na avenida.

Decadência

As décadas de 1990 e 2000 marcam um período de decadência nos sambas-enredos. Este processo acontece de mãos dadas com dois fenômenos: tanto a perda na qualidade dos enredos, que, na maioria dos casos, passam a ser patrocinados por empresas ou governos, como também a “invasão” dos artistas advindos do Carnaval baiano. Como consequência, pelas ruas e salões de todo o país, o samba-enredo perde espaço para a axé music.

Deste período, poucos sambas ficaram para a memória – em sua grande maioria, obras do início dos anos 1990 e que ainda surfaram na popularidade da década anterior. O melhor exemplo é “Peguei um Ita no Norte”, que conduziu o Salgueiro a um desfile arrebatador em 1993. “De Bar em Bar, Didi um poeta” (União da Ilha, 1991), “Sonhar não custa nada” (Mocidade, 1992) e “Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu” (Mangueira, 1994) são alguns dos sambas que conseguiram sobreviver a este cenário.

Retomada

Na década atual, o samba-enredo passa por um processo de revitalização, ainda que isso não se tenha revertido na retomada da popularidade dos anos anteriores. A decadência do modelo de enredo patrocinado foi decisiva para que as escolas voltassem a escolher temas mais interessantes para os compositores. Muitos especialistas afirmam que, se fossem lançados nos anos 1980, seriam antológicos sambas como “Brasil de todos os deuses” (Imperatriz, 2010), “E o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual” (Portela, 2012), “Você semba lá... Que eu sambo cá! O canto livre de Angola”, (Vila Isabel, 2012) e “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um...” (Vila Isabel, 2013).

É samba-enredo, sabia?

Muitos sambas entraram para a história da música popular brasileira graças às regravações de artistas de sucesso. Com o tempo, muitos fãs acreditam que estas músicas são de autoria de seus intérpretes, ignorando o fato de que foram sambas de grande sucesso na avenida. Veja alguns exemplos:

- “Bahia de Todos os Deuses” (Salgueiro, 1969)

Sucesso estrondoso na voz de Elza Soares (que cantou o samba na avenida) e Jair Rodrigues, este samba é um dos maiores sucessos da história do Salgueiro. Obra de Bala e Manuel Rosa.

- “A Lenda das Sereias” (Império Serrano, 1976)

Um dos grandes sucessos do repertório de Marisa Monte, este samba, na verdade, embalou o desfile do Império Serrano no Carnaval de 1976. Seus autores são Vicente Mattos, Dionel e Veloso.

- “O Amanhã” (União da Ilha, 1978)

Imortalizado por uma gravação de Simone (que incluiu um “ô, ô, ô” que não faz parte da versão original), é um dos sambas mais famosos da União da Ilha do Governador, assinado por João Sérgio.

- “É Hoje” (União da Ilha, 1982)

Sucesso nas vozes de Caetano Veloso e Fernanda Abreu, este samba, de Didi e Mestrinho, conduziu a União da Ilha a um de seus desfiles mais bem sucedidos: quinto lugar no Carnaval de 1982. 

Sambas-enredos fundamentais

Conversamos com alguns especialistas e eles nos disseram seus sambas-enredos favoritos. Confira:

1 - “Os Cinco Bailes da História do Rio” (Império Serrano, 1965)

Na opinião da pesquisadora e escritora Rachel Valença, este samba é “o mais perfeito exemplo da aproximação do samba-enredo com a epopeia clássica”. O historiador e escritor Luiz Antonio Simas afirma que o samba, composto por Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau, é “um clássico samba-lençol, cobrindo todo o enredo com melodia sublime”.

2 - “Chico Rei” (Salgueiro, 1964)

De acordo com o pesquisador e professor da Uerj Felipe Ferreira, este samba merece estar em qualquer antologia por conta da beleza de sua letra e música. O compositor Tunico da Vila, filho de Martinho da Vila, considera que a obra, de Geraldo Babão, Djalma Sabiá e Binha,  é “uma obra prima, que refletia a resistência e a sobrevivência dos escravos em busca da liberdade”.

3 - “Dona Bêja, Feiticeira de Araxá” (Salgueiro, 1968)

Na opinião do jornalista e comentarista Fábio Fabato, trata-se de “um samba que promove o encontro mais sublime entre História e lirismo, sem prejudicar qualquer uma dessas vertentes poéticas”. O intérprete do Salgueiro, Leonardo Bessa, destaca que o samba, além de belíssimo, nem sempre é lembrado pelo público. O autor é Aurinho da Ilha.

4 - “Heróis da Liberdade” (Império Serrano, 1969)

Um samba corajoso, lançado no auge da ditadura militar e que até hoje abre os ensaios do Império Serrano. Na opinião do compositor André Diniz, várias vezes campeão na Vila Isabel, este samba é a obra-prima de Silas de Oliveira. Fábio Fabato faz coro: “é praticamente um libelo em prol da liberdade em roupagem de música de carnaval”.

5 - “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite” (Portela, 1981)

Um clássico portelense, assinado por David Correa e Jorge Macedo e que ficou por mais de seis meses após o Carnaval nas paradas de sucesso. André Diniz destaca que este samba marcou um momento em que os sambas-enredos ficaram mais vibrantes e, desta forma, conquistaram o público com maior facilidade.

6 – “Os Sertões” (Em Cima da Hora, 1976)

Na opinião do compositor Cláudio Russo, autor do samba do Tuiuti para este Carnaval, “este é o samba com o maior poder de síntese da história. Dor e drama em melodia de lamento”. Luiz Antonio Simas destaca que este samba foi o grande exemplo de um modelo que durante anos caracterizou o estilo com a primeira parte em tom menor, a segunda parte em maior e refrão final de quatro versos.

7  – “Sonho de um sonho” (Vila Isabel, 1980)

Na opinião de Andre Diniz, trata-se de “um samba genial do início ao fim, com a marca de Martinho da Vila”. Tunico da Vila, naturalmente concorda e afirma que, além de ser uma das grandes obras de seu pai, tem o mérito de tocar em temas sensíveis como a tortura em plena época de abertura política.

8 – “Sublime Pergaminho” (Unidos de Lucas, 1968)

O samba mais relevante da Unidos de Lucas, escola tradicional mas que hoje se encontra no Grupo C (equivalente à quarta divisão) do Carnaval Carioca. Cláudio Russo afirma que o samba, além de bonito, é necessário e destaca que, a partir de seu refrão, surgiu o mote para o enredo do Tuiuti para 2018: “Meu Deus, Meu Deus está extinta a escravidão?”. A obra é assinada por Zeca Melodia, Nilton Russo e Carlinhos Madrugada.

9 – “Domingo” (União da Ilha, 1977)

O samba que catapultou a União da Ilha ao patamar de escola querida pelo público foi lembrado pelo escritor Alberto Mussa. Em sua opinião, o samba de Aurinho da Ilha, Ademar Vinhais, Ione do Nascimento e Waldir da Vala trouxe a “alegria e a descontração ao nível de epopeia”.

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