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Aula de otimismo: Passista da Vila Maria sapateia com perna mecânica

Arquivo Pessoal
Gabriela Torquato em ação no teatro Imagem: Arquivo Pessoal

Soraia Gama

Do UOL, em São Paulo

10/02/2018 08h53

Gabriela Torquato Fernandez cresceu na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficientevendo de perto as muitas dificuldades do povo brasileiro Neste sábado, ela desfilará pelo segundo ano consecutivo na ala Sambateado da Unidos de Vila Maria – a última escola a se apresentar no sábado (10). “Vi as diferenças de cultura e criação. É difícil ver pessoas que têm muito menos amputações do que eu, menos dificuldade [física] e têm uma vida muito mais limitada por questões culturais, emocionais, financeiras”, diz a jovem de 25 anos.

A passista não quer exposição, mas admite que pode virar um exemplo para outros com dificuldades. “Minha ideia não é só desfilar e ficar me expondo. Quero, de certa forma, conseguir chegar em pessoas que não têm as mesmas oportunidades que eu, e acabam tendo uma vida muito diferente. Espero que possam ver de fato que existem outros caminhos por aí”.

Não ter a perna esquerda não impediu que Gabriela fosse atrás de realizar suas vontades. Claro que o apoio da família foi fundamental. “Para eles, não ter uma perna era o de menos. A preocupação com a minha saúde era bem maior”, conta ela, que passou por uma cirurgia 24 horas após vir ao mundo – ela nasceu com onfalocele [quando os órgãos nascem em uma espécie de bolsa continuada do cordão umbilical]. Aos quatro meses fez novas cirurgias: de catarata e para amputar uma má-formação. Depois vieram muitas outras: nove no total.

Mas não pense que ela se coloca na posição de coitadinha, não. Muito pelo contrário. A garota sorridente, que se diz cara de pau e meio louca, tocou violão na infância, fez natação, formou-se em administração e também atuou em um grupo profissional de teatro. Viajou para fazer trilhas no Atacama, é voluntária no projeto Amigos do Bem, fez trilha na Amazônia, toca diversos instrumentos de percussão, faz mestrado em gestão e políticas públicas, pega onda...  Mas foi em 2016, quando fazia pós-graduação na Escola Superior de Artes Célia Helena, que Gabriela conheceu Cris Matallo, a coreógrafa do Sambateado.

“Foi muito marcante a primeira experiência com a Cris.  Eu me divertia pensando em que ponto eu havia chegado com a minha cara de pau [risos]. Eu achando que ia sapatear, né? Eu não tenho nada da perna. Eu não tenho a bacia, na verdade. Não tenho quadril. Não consigo ficar muito tempo apoiando na prótese e meu tempo de resposta é diferente. Eu ando, na verdade, com meu tronco, com meu abdômen. Mas estava me divertindo. No fim da aula eu agradeci e disse que não queria atrapalhar o grupo. A Cris insistiu para que eu tentasse”, conta Gabi, feliz por ter aceitado o convite.

Gabriela diz que a dança, assim como outras coisas na vida, não precisa ser tão dura, tão certinha. Para ela, o que vale é a energia que você deposita em uma ação. “Se estamos presentes de verdade, colocando nossa energia, nosso propósito, é assim que isso vai chegar para quem está do outro lado. Sinto esse impacto no dia a dia. Eu me sinto melhor, com ideias melhores, preparada para qualquer coisa.  A gente fala muito em estudar e se capacitar, mas nosso corpo não é nossa cabeça. A gente esquece de cuidar do corpo com um todo. Quando trabalha isso de uma forma mais sinérgica, as coisas se transformam”, garante a moça.

Carnaval na veia

Engana-se quem pensa que a estreia de Gabriela no Sambódromo do Anhembi foi na Sambateado em 2017, na Vila Maria. “Eu já desfilei de mendiga na Tatuapé [em 2016, quando a escola ficou em 2º lugar), em uma ala que homenageava Joãozinho 30”, lembra ela, que também é fã de blocos de rua: “Sou rata velha de Carnaval. No Rio de Janeiro vou desde 2010. Amo bloco de rua. E fico ali, no meio da muvuca do bloco, coloco fantasia... fico até o final. Sou dessas”, comemora Gabriela, que no último sábado (dia 3/2), em São Paulo, acompanhou os blocos Acadêmicos 9 de julho [da Faculdade Getúlio Vargas], Confraria do Pasmado e fechou a noite no Bar do Baixo, no bairro de Pinheiros, curtindo uma roda de samba. “Amo samba”, diz ela, já citando os Novos Baianos [“Quem não gosta de samba/bom sujeito não é...”].

Arquivo Pessoal
Gabriela, ao centro, em ensaio técnico da Vila Maria Imagem: Arquivo Pessoal

Gabriela fica meio dividida ao falar de Carnaval. Ela, que trabalha com políticas públicas e educação, sempre ouve que o dinheiro empregado na festa poderia ser revertido em outros benefícios para a população. “Concordo em certo ponto, mas também é importante toda essa alegria, a diversidade dessa festa. Pode estar caindo o mundo, a pessoa pode estar cheia de problema e está lá dançando, dando o seu melhor. Ao mesmo tempo, se tivermos um olhar mais crítico, de como esse investimento é usado, vamos querer mudar, melhorar. É complicado.”

O melhor, na opinião dela [e de muitos, com certeza], seria levar tudo o que o Carnaval tem de bom para o resto do ano. “A alegria, a união, essa esperança toda”, sonha Gabriela, que elogia escolas de samba que desenvolvem trabalhos com a comunidade e agradece sua conquista pessoal. “O Carnaval para mim foi muito importante. Participar dele me permitiu ter insights, pude me conhecer melhor, diminuir as dores que sinto no dia a dia e despertou coisas em mim que eu não teria conseguido se não fosse por essa oportunidade”, diz ela, lembrando que muitas vezes encaramos as coisas como ‘é só uma festa’. “Mas tudo a gente pode usar a nosso favor. A gente consegue tirar ótimas lições que nos ajudam a dar o próximo passo”, conclui.

Problema, eu?

“Agora vai ser a versão ala em cima do carro... Pois é. Naquele queijo minúsculo, apertado e tocando maraca. Vai ser emocionante!” diverte-se ela. “Vamos sair tocando com as mãos, fazendo a coreografia com o corpo e sapateando com os pés.”

Pelo menos em cima do queijo será menos cansativo do que foi durante os ensaios técnicos. “Às vezes tínhamos de sair correndo para acompanhar a bateria. Para mim é difícil, porque há limitações do que eu consigo fazer. É que eu tenho mesmo muita cara de pau e consigo disfarçar [risos].  O importante é fazer carão”, ensina Gabriela, que é firme ao dizer que tudo depende da forma como você se vê e encara os fatos. “Se você se enxergar como um problema é assim que as pessoas vão te ver. Mas se você chegar chegando, estiver bem e se aceitando, nada se tornará um problema.”

Não querer falar a respeito ou ficar brava quando alguém não sabe lidar com essas deficiências também não resolve. “O importante é estar aberta para as pessoas poderem perguntar, deixa-las à vontade em vez de cheias de dedos. Não saber como falar, como lidar cria mais barreiras e aumenta o preconceito.

Um dia com joelho eletrônico

No ano passado Gabriela descobriu que parte das dores nas costas eram causadas por conta do enchimento que usava na perna mecânica [uma espuma que saia a partir do quadril até o pé para dar o preenchimento e proteger as roupas]. Ela só descobriu isso porque tirou a espuma para um ensaio técnico em dia de chuva. “Senão ia carregar dez quilos só de água. Tinha usado aquilo a minha vida inteira! Não questionava. É assim, então está bom. Eu engolia a dor e tudo bem”, conta ela, que é cobaia em uma empresa que faz próteses para vários atletas. “Estamos trabalhando em um novo encaixe para reduzir as dores. Vai ajudar também outras pessoas a terem mais mobilidade e poderem se aventurar em coisas loucas como eu [risos].”

Ajudar nessas experiências resultou em um teste de joelho eletrônico. “Nossa, quando era criança pensava que jamais chegaria perto. O preço é estratosférico! Então pensei ‘que demais!’. Mas quer saber? É pesado, não companha o meu ritmo e para dançar é ruim. Prefiro o meu pobretão [risos]. É um mito achar que precisa do dinheiro para resolver o problema”, diz Gabi.

Além da importância do encaixe da prótese [a parte que entra em contato com o corpo, portanto a que pode gerar rejeição], a educação, a cultura e o apoio de familiares são essenciais no processo como um todo. “Independentemente se a pessoa tiver muita dor ou não, se ela quiser chegar num lugar ela vai chegar. É superimportante a acessibilidade, claro, mas já usei cadeira de rodas por um ano e não deixei de ir a nenhum lugar. Tem degrau? Pede ajuda! Ainda mais no Brasil que é um povo aberto. A gente tem uma força dentro da gente que nos permite chegar aonde nem imaginávamos que poderíamos, o importante é despertar esses sonhos”, acredita Gabriela.

Bullying na família

Gabriela conta que a família dos pais tem origem humilde, que todos ralaram muito para poder acontecer: “Sempre tive o exemplo deles de que nada vem fácil. Nunca me deram muito boi, não, pelo contrário. Eu sofri muito bullying da minha família [risos]. Sempre me zoavam quando era pequena. Não me tratavam diferente e não me superprotegiam”.

Desde muito novinha, ela frequentou a mesma escola. “Na aula de natação todo mundo estava acostumado a me ver pulando numa perna só. As freiras ficavam doidas. Eu era muito arteira”, conta ela, que aos 8 anos teve de mudar para outra escola porque a família passou por dificuldades financeiras. “Foi ali senti que era diferente. Até então eu brincava de tudo o que eu queria. Nunca tinha achado nada estranho. Daí fui ao banheiro e as crianças começaram a olhar por debaixo da porta. Para eles eu tinha um problema. Então eu tinha de mostrar para as pessoas o que era aquilo. Eles tinham uma visão distorcida e eu precisava ganhar o meu espaço”, relata Gabriela.

Hoje ela percebe que naquela época ela já tinha o privilégio de ter a família ao seu lado e de conseguir aprender a ver o mundo de um modo que a faça feliz. “Vejo que há pessoas com muito mais recursos que eu, com condições que parecem mais favoráveis, mas que não têm essa mesma alegria, esse sentimento de gratidão que eu tenho. Para mim é importante mostrar que as pessoas podem ser muito felizes e aproveitar as oportunidades.”

Triste por saber que o índice de portadores de deficiências físicas que se formam em universidades é baixíssimo [pouco mais de 1%], espera poder ajudar de alguma forma, mostrando que há sim outros caminhos. “Claro que isso impacta em ter oportunidades. O que não dá é para virar 'incapaz', como classifica o INSS. Esse nome é horrível! Todos devem ter a oportunidade de seguirem seus sonhos e escolher a sua jornada”, lamenta.

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