21/02/2009 - 09h18

Confusão, política e homenagens marcam a primeira noite de desfiles em SP

Da Redação
A primeira noite de desfiles das Escolas de Samba de São Paulo, que começou na noite desta sexta-feira (20), no Sambódromo do Anhembi, contou história de povos e culturas, rendeu homenagens a personagens do Carnaval, teve confusão e bate-boca e, até, análise política. Coube tudo na avenida, durante a passagem das sete agremiações escaladas para abrir a festa paulistana. Melhor para Mancha Verde, que distribuiu bandeiras e levantou o público; Rosas de Ouro, que encantou a arquibancada com o espírito lúdico do samba; e Vila Maria, que fez da bateria um tabuleiro de xadrez e abusou da "paradinha" para mostrar a alucinação provocada pela cobiça do dinheiro.

Alexandre Schneider / UOL 
Rosas de Ouro homenageia agremiações do Carnaval paulistano, na 1ª noite de desfiles

A Unidos do Peruche iniciou a festa do Anhembi, por volta das 23h, com o samba-enredo "Do ventre da Terra à indomável cobiça do homem", que contou a busca do homem por pedras preciosas. Com fantasias luxuosas e muito dourado, a escola falou do jogo de conquista e ascensão social desde a pré-história, passando pelas antigas civilizações e chegando aos garimpos brasileiros. Destaque também para para a ala das crianças, com direito a casal mirim de mestre-sala e porta-bandeira, e para uma passista de muito fôlego -- a estilista Linda D'Bergamo, de 50 anos, prometeu quebrar o recorde mundial e desfilar em 20 escolas de samba.

A segunda escola foi a Rosas de Ouro, que trouxe o clima de fantasia à avenida com bonecos gigantes, brinquedos, palhaços e muita cor para contar a história dos bastidores e das pessoas que suam para fazer o Carnaval funcionar. O samba-enredo "Bem-vindos à fábrica dos sonhos" abriu espaço também para o "ecumenismo" da comissão de frente, que carregou as estandartes de todas as escolas paulistanas. As baianas entraram vestidas de fadas, e a bateria vestiu a fantasia de arlequim, sob o comandado da madrinha Ellen Roche. Para fechar o desfile, ala com formigas gigantes, animais associados ao trabalho árduo, representou àqueles que trabalham o ano todo pela escola, mas pouco são notados.

Com direito a bateria fazendo "paradinhas" -- estratégia rítmica em que a ala da escola faz uma ligeira pausa -- e simulando partidas de xadrez, a Unidos Vila Maria foi a terceira escola a desfilar no Anhembi, com o enredo "Da sobrevivência a luxúria, da ilusão a alucinação. Dinheiro, mito, história e realidade". Cinco alegorias, cerca de cinco mil componentes, e destaques, como a dançarina e apresentadora Scheila Carvalho, levantaram o público com a mensagem de que o dinheiro pode causar danos, se não for bem empregado. Ouro, metais nobres, escambo de materiais, papel-moeda e até dinheiro virtual circularam pela avenida durante os 63 minutos de desfile.

Foi então o momento da arquibancada ficar perplexa, graças ao samba apresentado pela Tom Maior. Com 3800 componentes, 24 alas e cinco carros alegóricos, a quarta escola da noite lembrou os horrores da guerra, mas também celebrou a paz e contou com o cantor e compositor Martinho da Vila, embaixador cultural de Angola no Brasil. O tema que abarcou todos estes assuntos tinha nome extenso: "Uma nova Angola se abre para o Mundo! Em nome da paz, Martinho da Vila canta a liberdade!". Polêmica, a comissão de frente da escola não dançou, preferindo representar o sofrimento das vítimas do conflito africano. O carro abre-alas, mostrando a "Guerra Civil Angolana", exibiu caveiras gigantes, metralhadoras e soldados. A rainha da bateria, Andréia Gomes, chamou a atenção por desfilar grávida de 7 meses. E a madrinha, Adriana Bombom, pelo abdômen extremamente malhado. Martinho da Vila emocionou o público ao aparecer desfilando sobre o carro alegórico que trazia seu nome, após ser lembrado também pela ala "Boêmios de Vila Isabel", formada por homens e mulheres encarnado os tradicionais "malandros" cariocas, de terno branco.

"Pernambuco, Uma Nação Cultural" foi o samba-enredo escolhido pela Mancha Verde para o Carnaval de 2009. No ano passado, a escola já havia "perambulado" pelo Estado ao homenagear o escritor Ariano Suassuna. Com 5 mil componentes e cinco carros alegóricos, a agremiação conquistou a plateia antes mesmo do início do desfile, ao distribuir bandeiras. Abusando de suas cores, o verde e o branco, mas também se valendo do dourado, contou a chegada dos conquistadores portugueses, do ciclo da cana-de-açúcar, da influência religiosa e da força cultural do povo pernambucano. A presença holandesa foi representada pela bateria, vestida de Maurício de Nassau e liderada pela modelo Viviane Araújo. A representação da Paixão de Cristo, realizada em Nova Jerusalém, também foi lembrada, assim como o artesanato que cria bonecos e cerâmicas. Acadêmicos como Gilberto Freyre e Austregésilo de Athayde foram homenageados em conjunto com dançarinas de frevo e trapezistas. Até os tradicionais blocos do Carnaval local se fizeram presentes, com a representação do Bacalhau do Batata, que estende a festa na Quarta-feira de Cinzas.

Penúltima escola à desfilar, a X-9 Paulistana trouxe o debochado enredo "Amazônia... Conseguimos conquistar com o braço forte...do esplendor da Havea Brasiliensis à busca pela terra sem males". O carnavalesco Paulo Fuhro fugiu do discurso politicamente correto ao tratar da "carnavalização" da mata, e misturou filmes de terror, diferentes civilizações, ídolos do ideário popular brasileira -- sósias de Clara Nunes, Luiz Gonzaga, Raul Seixas e Chacrinha dividiram espaço na avenida --, e religiões. Em clima de vale-tudo, foi possível até colocar a ex-chacrete Rita Cadillac dentro de uma melancia gigante (na verdade, um carro alegórico com este formato), para provocar os defensores da atual colheita de mulheres-fruta: no mesmo carro, outra integrante surgiu nua, coberta apenas pela inscrição "vende-se".

Reprodução 
Após confusão, destaque recebe ajuda para subir até carro alegórico da Nenê

A incumbência de fechar a primeira leva de desfiles, já com o dia amanhecendo, coube à Nenê de Vila Matilde, a sétima a passar pelo Anhembi. O tema escolhido, "60 anos - Coração guerreiro, a grande refazenda do samba", era festivo e homenageava o fundador da escola seu Nenê. Mas a tarefa foi cumprida com muitos problemas, de ponta a ponta da avenida. Na concentração, o boneco instalado em um dos carros alegóricos teve um dos braços quebrados e teve de ser remendado. Depois, uma passista se recusou a subir em um dos carros alegóricos, enquanto empurradores de carro também se recusaram a fazer o seu papel. Rumores davam conta, até, de que o carnavalesco Lucas Pinto também teria se desentendido com o presidente da escola, e abandonado o sambódromo. Durante o desfile, outro carro teve problemas, desta vez com o eixo, e a primeira-porta bandeira da escola passou mal devido ao calor, foi atendida e voltou a dançar. Apesar dos contratempos, a escola levou 58 minutos para cruzar o sambódromo e teve tempo para empolgar a arquibancada, com reforço de famosos como os atores Adriana Lessa e Miguel Falabella. O time de futebol Corinthians também foi celebrado pela Nenê, que mirou o futuro e encerrou a participação com seus integrantes gritando "É campeão".

O desfile das Escolas de Samba de São Paulo prossegue neste sábado, a partir das 22h30, com Leandro de Itaquera, Pérola Negra, Mocidade Alegre, Acadêmicos do Tucuruvi, Gaviões da Fiel, a campeã de 2008 Vai-Vai, e Império de Casa Verde.

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